Saturday, September 8, 2012

Meu discurso de abertura no Congresso Humanista


A LiHS é acima de tudo Humanista.

Antes de conhecer a LiHS eu já havia participado de outras organizações, mas a ênfase maior nelas era o ateísmo. É importante e louvável defender os direitos dos ateus na sociedade, mas essa ideia é relativamente simples e não demanda muito tempo nem teorias.

Depois de um tempo comecei a pensar, "mas é só isso?" Ateísmo é de fato só uma negação? E aí, o que fazemos com isso?

Então eu cheguei à conclusão de que o ateísmo é um ponto de partida, uma mudança de direção, e não um objetivo em si mesmo. Pensamos, avaliamos e analisamos todos os argumentos, e a partir disso algumas pessoas chegam à conclusão de que o ateísmo é o que faz mais sentido para elas. Mas é basicamente isso, uma conclusão. O que vamos fazer a partir deste ponto é que pode variar bastante. Algumas pessoas se satisfazem com a conclusão e fica por isso. Outras pessoas vão tomar caminhos diferentes, sempre de acordo com a sua própria natureza íntima. Não há uniformidade entre os ateus, assim como não há uniformidade entre religiosos , ou de resto qualquer outro tipo de grupo.

Quando conheci a LiHS percebi que nela se abria um leque de atuação que ia além do ateismo. Quando fui convidada a participar dela, aceitei com prazer.
Humanismo é, em poucas palavras, "Razão a serviço da compaixão". Então na sua essência, humanismo é compaixão. Vou além, humanismo é empatia.
Empatia é a capacidade de "sentir com", de se colocar no lugar do outro e entender como ele/ela se sente. Se formos capazes de fazer isso, já não conseguimos agir de maneira a causar infelicidade e sofrimento.

Quando agimos de maneira insensível, ridicularizando e agredindo alguém por suas convicções e crenças, em 99% dos casos as pessoas vão se afastar. Isso não ajuda em nada, muito pelo contrário.

A melhor estratégia é tratar as pessoas com gentileza, porque há uma probabilidade maior de que parem e escutem o que temos a dizer. Gostaria de dar um exemplo pessoal:

Meu pai era uma pessoa muito racional. Até os meus 21, 22 anos eu fui ateia, mas de alguma forma eu criei uma aversão a essa ideia, entre outras coisas porque o meu pai era praticamente o meu único modelo, e não tínhamos um bom relacionamento. Era pouco acolhedor, distante; hoje eu sei que ele devia sofrer da síndrome de Asperger, que faz com que a pessoa tenha pouca capacidade de interação social.

Uma das coisas que fiz foi estudar astrologia, e acreditava sinceramente na validade dela. Meu pai não acreditava, é claro, mas quando ele tentou me confrontar com a falta de base da astrologia, foi muito natural que eu resistisse, e não me dispus a escutar os seus argumentos.

Com os anos o meu pai se tornou mais tolerante e menos confrontador. Um dia ele me pediu que eu fizesse o mapa astral dele. Ele percebeu que fiquei surpresa e me disse, "não é que eu acredite em astrologia, mas eu acredito que você seja uma boa astróloga". E acrescentou, "acho que seria interessante ver o que viria através de um filtro como você".

O resultado foi que eu fiz o mapa dele, mas não consegui sentar e analisá-lo com ele. Percebi que eu seria incapaz de justificar e sustentar uma argumentação diante de um cético como ele. E entendi também que o que ele queria saber era o que eu pensava a respeito dele. E que eu não precisava de um mapa astral para isso.

Percebi que era isso que eu fazia com todos; o mapa só servia como um catalisador da conversa que eu tinha com as pessoas, o que elas sentiam e pensavam. Eu sempre fui boa ouvinte e sempre me importei em tentar entender as pessoas e dar alguma sugestão que as ajudasse.
E eu podia fazer isso muito bem sem mapa nenhum.

Este foi um passo em direção ao ateísmo também. Não o único, outro fator importante foi quando descobri que a minha filha e um dos meus filhos haviam chegado ao ateísmo de forma independente. Importante frisar que eu não criei os meus filhos para serem ateus, mesmo porque eu não era ateia durante a infância e adolescência deles. Eu também não era teísta, mas deísta. Em todo caso, eles ficaram livres para tomar as suas decisões.

Todos esses fatores juntos acabaram me levando a um ponto em que senti que não conseguia mais acreditar em nada disso. Não foi muito fácil, levou algum tempo.

O que eu queria frisar mesmo com esse relato é que a mudança de atitude do meu pai foi muito importante. A gentileza dele associado ao pedido que ele fez foi fundamental para que eu tivesse condições e a coragem de reavaliar a minha crença na astrologia.

Queria transmitir a ideia de que, assim como a atitude gentil do meu pai teve muito mais efeito do que o confronto, também nós deveríamos agir da mesma forma com as pessoas que tem crenças diferentes das nossas. Acredito que uma atitude verdadeiramente humanista com relação às pessoas pode não convencê-las de nada a princípio, mas as tornará bem mais propensas a pensar e considerar os nossos argumentos.

A LiHS é acima de tudo uma entidade humanista. Gostaria que todos os seus integrantes entendessem que a gentileza é uma das nossas melhores estratégias.

Mas a história do ateismo na minha família vai muito além do meu pai.

O ateísmo na minha família é praticamente uma tradição. Desde a minha bisavó que, tudo indica, era ateia pela forma como ela simplesmente não menciona a religião em seus escritos - cartas e diários - reunidos em um livro e publicados pela minha vó paterna. Por causa desse livro sei muita coisa sobre o passado da minha família.

Há mais de cem anos meu avô paterno fazia parte de uma organização estudantil de livrespensadores na Finlândia chamada Prometheus. A Prometheus existiu entre 1905 e 1914, e lutava por um Registro Civil na Finlândia, o direito dos que não tinham religião de se casar no civil e registrar os seus filhos sem ter que batizá-los. Pode parecer estranho hoje, mas até o ano de 1921, só havia a opção de casar e batizar os filhos em alguma igreja como forma oficial de regulamentação. Também reivindicavam o fim do ensino religioso obrigatório nas escolas, e outras coisas semelhantes.

O fato é que o meu avô e os outros integrantes da Prometheus não lutaram pelo fim da religiosidade em si, eles lutaram por espaço, pela liberdade não ter religião, pelo direito de ocupar o seu espaço em uma sociedade onde todos tivessem as suas convicções respeitadas. Eles também lutaram por um Estado Laico, mas isso eles não conseguiram. Até hoje a Finlândia tem uma religião oficial, a Igreja Luterana.

Erra muito quem pensa que o ateismo na Finlândia tem alguma relação com o comunismo. Na verdade é exatamente o contrário. Uma Associação para discutir filosofia e iluminismo chamada Valhalla existiu entre 1781 e 1786 por influência do Iluminismo francês. Houve uma publicação sobre liberdade de religião em 1863. Em 1889 já se discutia sobre a teoria de Darwin.

Houve uma tentativa de estabelecer uma associação ateista em 1887, mas foi suprimida pelo Csar; a Finlândia ainda pertencia à Rússia na época. Só se tornou independente quando ocorreu a revolução russa, e foi depois disso que a maioria das reivindicações da Prometheus foram atendidas pelo governo.

O meu avô foi secretário dessa organização durante a maior parte de sua existência. Um dos integrantes se chamava Rolf Lagerborg, e ele teve um papel importante. Ele enfrentava a igreja em assuntos como moralidade e também a igualdade entre homens e mulheres. Sobre ele tem uma história bem peculiar. Como ele era contra a obrigação de casar na igreja, ele achou uma forma um tanto inusitada de se casar. Tenham em mente que isso tudo se passou uns cem anos atrás. Ele combinou com a noiva dele que ela o denunciaria ao Juiz por 'se recusar a levá-la diante do pastor', apesar de ter 'coabitado' com ela. Imaginem o escândalo na época e o quanto essa mulher foi corajosa. Ele disse ao Juíz que de fato se recusava a levá-la ao pastor, mas que ele não se recusava a se casar com ela; e que se o juíz assim determinasse e resolvesse julgá-los casados, isso ele aceitaria. Não conheço todos os detalhes dessa história, mas eu a ouvi ainda criança quando foi comentada em conversas familiares.

A Finlândia foi um dos primeiros países onde as mulheres tiveram reconhecido o seu direito de voto. E eu cresci em uma família onde as expectativas que meus pais tinham de mim eram basicamente as mesmas que tinham do meu irmão. É claro que havia machismo mesmo lá, mas menos. Uma das coisas que percebi quando me mudei para o Brasil foi que não havíamos viajado só geograficamente, havíamos viajado para trás no tempo mais ou menos uns vinte anos. O Brasil na década de 70 estava, em termos de moralismo e feminismo, mais ou menos onde a Finlândia estava na década de 50.

Sou uma 'quebra de estereótipos' ambulante. Além de eu não corresponder minimamente ao estereótipo que se tem dos ateus, também não correspondo ao estereótipo de feminista. Na verdade, embora eu sempre tenha sido, eu demorei para entender que eu devia deixar isso claro para as pessoas, que eu sou feminista. A palavra recebeu uma conotação pejorativa com o tempo, muito graças a seus detratores que precisavam abafar esse movimento. Está havendo uma forte reação atualmente para resgatar o termo, e mostrar o que feminismo de fato significa.

Feminismo não é odiar homens, para começar. O nome disso é misandria. Também não é se considerar superior aos homens, o nome disso é femismo (cá entre nós, eu chamo de babaquice mesmo). Somos uma espécie sexuada, homens e mulheres precisam uns dos outros. Como poderíamos conviver satisfatoriamente se uma das partes despreza a outra? Se há competição em vez de colaboração, um casamento não dura. A única solução humanista para um convívio pacífico e satisfatório é se formos capazes de nos ver como gente antes de mais nada.

Isso é totalmente condizente com o Humanismo, cujo enfoque também é o de que devemos ver todas as pessoas como indivíduos com direitos que devem ser respeitados, independente de qualquer outro fator.

Sunday, September 2, 2012

Uma Ateia Humanista

Todos evoluímos, e o que nos parece certo e adequado em um momento das nossas vidas se torna ultrapassado e inapropriado em outro momento.

Decidi mudar o nome do blog, e também a forma como me apresento. Sei que pode não parecer uma mudança significativa, mas para mim é.

A "Ateia de Bom Humor" sai de cena, entra a  Ateia Humanista.

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Friday, August 17, 2012

Feminismo não é Femismo - por Paula Berlowitz


Feminismo não é femismo – entenda a diferença e assuma-se como feminista
 [texto parcial, para ler na íntegra siga o link no final do texto]


Tu, aí, mulher, que diz “Eu não sou feminista, mas…”. Pára! Pode parar por aí!

Feminismo NÃO É o contrário de machismo! Pensavas que sim?! Te enganaste! O oposto do machismo é o FEMISMO! Queres entender melhor?! Então pega um café, senta aí, e lê até o fim! Prometo que não vai doer!

Vou começar devagarinho e depois pego o embalo! Quem me acompanhar na viajem até o fim, sai ganhando!
Resuminho:
  • Machismo: homem achar que é superior a mulher.
(O equivalente feminino? )
  • Femismo: mulher achar que é superior ao homem.
(É diferente de..)
  • Feminismo: movimento social constante, pela igualdade de direitos entre homens e mulheres. Também existem muitos homens feministas!
(Que equivaleria ao…)
  • Masculinismo: movimento social vindouro, que já dá seus prenúncios, no qual homens reivindicarão a igualdade em direitos que eles “ainda não tem” (este é divagação minha – me aprofundo a seguir…).
[....]

O FEMINISMO, por outro lado, é uma luta social constante, na qual nós, mulheres, reivindicamos nossa igualdade de direitos (o que também NÃO É A MESMA COISA que direitos iguais, afinal não haveria melhora significativa em nossas vidas o fato de poder fazer xixi em pé, nem eles poderiam reivindicar intervalos no trabalho para amamentar o filho… Fatores biológicos são fatores biológicos. Eles não terão menopausa e nós não ficaremos broxas.. hehehe Cada um com seus problemas). A igualdade de direitos da qual falamos (e tua mãe e tua avó e talvez tua bisavó já falavam, também) é poder estudar, escolher a própria profissão, ir trabalhar e receber o mesmo salário que um homem, com a mesma qualificação e número de horas trabalhadas, recebe. É poder votar. É escolher se e com quem se relacionar. É escolher se e quando será mãe. É tomar anticoncepcional. É poder carregar camisinha na bolsa sem isso ser “pecado” ou motivo de vergonha. É poder namorar com um cara ou mulher, se assim preferir e, se não for bom, partir pra outra sem receber um rótulo de “VADIA” (que é a palavra do momento! ;D). É dirigir – seu carro e sua vida. É andar na rua sem precisar de “escolta masculina”, sem ouvir “galanteios” chulos, sem levar “passada de mão”. É pagar as próprias contas, ou dividí-las, se esta for a decisão conjunta. É não ser vítima de agressão doméstica nem de violência sexual. Enfim: diversas coisas que, umas mais, outra menos, tu achas MUUUUITO NATURAL, certo?!
ERRADO! Tudo isso são adventos FEMINISTAS! Há mais de um século mulheres estão em constante e incansável batalha para que a sociedade “absorva” esses “novos moldes”! Muitas se masculinizaram, queimaram sutiãs, sofreram, apanharam, foram torturadas e, inclusive, MORRERAM para que hoje tu possas pegar teu carro e ir ao Shopping, com teu salário, comprar tua minissaia da Donna Karan e tua bolsa Channel – inclusive elas passaram por poucas e boas para atingirem seu sucesso! Então, toda mulher que usufrui e concorda com estes direitos É FEMINISTA! Embora, talvez, ainda não admita..


[...]

Feminismo NÃO é o oposto de machismo! Eu também já pensei assim! Mas me explicaram a diferença e hoje eu digo com orgulho: EU SOU FEMINISTA!
E tu? Também és, né?! Então assume e diz pra todo mundo!

(Agradeço às Blogueiras Feministas, que me apresentaram o termo FEMISMO, há cerca de 2 anos, quando entrei no twitter, e desmistificaram o FEMINISMO pra mim!)

OBS:
Leia o texto completo aqui.


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Wednesday, August 8, 2012

Marcha Nacional Contra a Mídia Machista: Porque participar?

 Em PORTO ALEGRE a Marcha foi transferida para o dia 

1 de Setembro 

devido à chuva.

 

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Marcha Nacional Contra a Mídia Machista: Porque participar?

A mídia é uma das influências mais diretas e efetivas sobre a população. É ela que, muitas vezes, forma opiniões, constrói e desconstrói mitos sociais, e retrata ou distorce a realidade. No meio midiático, há uma grande parcela machista, que distorce o real contexto da mulher na sociedade, incentivando e retratando algo que não é plausível. A mídia machista reduz e ignora as conquistas das mulheres enquanto incentiva a população à pensar de modo retrógrado e opressor.




Por este motivo, estamos nos organizando para ir às ruas no dia 25 de Agosto de 2012, por enquanto, em nove cidades - Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Recife (PE), Campo Grande (MS), Campinas (SP), Porto Alegre (RS), Florianópolis (SC), Distrito Federal (BR) -, protestando na Marcha Contra a Mídia Machista.



Há três dias a Marcha foi criada, por iniciativa do povo, ou seja, sem liderança por parte de nenhuma pessoa ou grupo específico, e já está sendo divulgada e organizada à todo vapor. Para quem ainda tem suas restrições sobre a Marcha, ou não entendeu muito bem do que se trata, segue um explicativo importante sobre o logo, a origem da Marcha, os focos principais da marcha, os objetivos que a Marcha pretende alcançar e a importância de você participar. Mesmo que não ache uma boa ideia, pelo menos leia este texto para depois dizer que é perda de tempo. Não custa nada pelo menos tentar entender as coisas. Pois bem:






Logo da Marcha feito por Anderson Koppe



A Origem


Há alguns meses, vem sendo veiculada na TV uma campanha publicitária da marca de cervejas "Nova Schin", com apologia ao estupro. Na propaganda, um grupo de homens bebendo num quiosque de praia imaginam: "E se fôssemos invisíveis?" Já no campo da imaginação, tudo o que se vê é uma latinha flutuante, e então, o "homem invisível" aproveita de seu "poder" para passar a mão em mulheres deitadas na areia e invadir o vestiário feminino, fazendo as moças saírem correndo de dentro do lugar, semi-nuas.


A propaganda da Nova Schin presta um desserviço à sociedade enquanto corrobora com a mentalidade de que abusar de uma mulher e invadir sua privacidade é aceitável, e pior que isso, engraçado. Não é engraçado. É estupro. Para quem acha que é exagero, não é: o estupro não configura apenas a penetração vaginal. Desde 2009, praticar qualquer ato libidinoso sem consentimento da outra parte envolvida é estupro é É CRIME.



Nos mobilizamos, mas parece que a Nova Schin não quer ouvir. Todos os protestos na página do facebook são apagados e ignorados, e a propaganda continuar no ar, à todo vapor. O jeito então, é apelarmos à CONAR pela retirada imediata de circulação da propaganda, e exigirmos da empresa uma retratação correta, não apenas: "Não foi nossa intenção ofender ninguém".



Mas como? Foi criado o grupo de debate no Facebook: "Imaginação e Não Apelação: Chega de Propagandas Machistas". Neste grupo, nós, pessoas de vários lugares do Brasil, debatíamos sobre o desrespeito com as manifestações da população, e procurávamos uma forma de nos mobilizar. Foi então que, em meio ao debate, surgiu a ideia de Marchas. Foi criada então, a Marcha Contra a Mídia Machista, um protesto contra a desvalorização e coisificação da mulher na mídia.




Mais uma Marcha?


Alguém publicou em um dos eventos: "Mais uma marcha? Já tem Marcha da Maconha, Marcha das Vadias, agora Marcha Contra a Mídia Machista? Marcha contra político vocês não querem fazer, né?!" Antes de qualquer coisa, reitero aqui o que já disse anteriormente: uma luta não invalida a outra. A Marcha da Maconha, das Vadias, da Humanização do Parto e qualquer outra que vier a acontecer tem sua validade para quem acredita na causa. Todas as lutas são válidas.


Tendo isso explicado, algo recorrente em redes sociais é a reclamação de que as pessoas de hoje em dia só se movimentam e manifestam-se na Internet. Nos mandam parar de apenas compartilhar fotos e fazer algo efetivo. Uai, então estamos fazendo! Estamos fazendo algo efetivo. A Marcha é um direito do povo de se manifestar conta e por qualquer causa ou justificativa. É válida e é direito.


É uma forma de sairmos da Internet e realmente irmos à luta. Afinal, o que poderíamos fazer? Mandar abaixo-assinados que seriam ignorados solenemente? Ligar para a CONAR e a sede da Nova Schin até bloquear as linhas telefônicas? Ir para os supermercados e jogar as latinhas para o alto, gritando por justiça? Não. Vamos marchar.






A Marcha das Vadias, que já aconteceu pela segunda vez, movimenta a opinião pública Foto: Tulio Vianna




O Logo


O Logo foi ideia da Melise Peruchini e arte foi do Anderson Koppe (obrigada, seus lindxs!), e representa o foco principal do movimento: Pressionar a Nova Schin a retratar-se devidamente e retirar a campanha publicitária do ar.


A Nova Schin ignorou e bloqueou qualquer pessoa que fosse protestar ou manifestar-se em sua página, mostrando completo descaso e desrespeito com a população que não concorda com seu comercial incitando estupro. Foi uma forma de dizer: "Ei, vocês podem gritar e esbravejar o quanto quiserem, não vai acontecer nada, nós é que mandamos nisso aqui". Pois bem.


O símbolo do Feminismo amassando a latinha de cerveja também manda um recado para a Nova Schin: "Estamos nos mobilizando, e isso não vai ficar assim! Vocês não podem nos calar!" A Marcha é contra a mídia que é machista em geral, mas o foco principal é a mobilização contra o desrespeito da Nova Schin para com a população que discorda de suas campanhas publicitárias.




Focos Principais


Teremos várias coisas à que protestar. Marcas de cerveja sempre traduzem a mulher como uma serviçal por natureza, e um brinde, uma recompensa sexual. Com pouquíssima exceções, a indústria cervejeira reduz a mulher à capacho serviçal e sexual do homem.


Marcharemos contra esta visão distorcida da mulher, que compra sua própria cerveja, que também é consumidora, e deve ser tratada com tal.


Empresas de cosméticos e roupas em geral também tendem a tratar mulheres como fúteis que só pensam em consumir com o dinheiro de seus maridos e namorados. As empresas de cosméticos e vestuário femininos ainda possuem um problema mais grave: direcionam-se para as mulheres, a fim de chegar aos homens. Ao mesmo tempo que corroboram na visão de "mulher dependente, que não trabalha, só gasta o dinheiro do marido", incentiva as mulheres a acreditarem que assim é o certo.


Marcharemos contra essa visão distorcida da mulher, que trabalha e compra seus próprios cosméticos, roupas, carros e o que mais queiram. A mulher atual sai e trabalha para garantir o seu sustento, não fica em casa esperando o marido chegar. A entrada no mercado de trabalho, assim como as oportunidades igualitárias às dos homens, é uma luta que obteve conquistas mas que ainda é constante. As campanhas publicitárias machistas não tem o direito de nos tirar este mérito!


Outro produto sobre o qual 90% das campanhas publicitárias são direcionadas à homens, é o carro. Os comerciais de carros quase sempre reproduzem o homem, que dirige rápido e bem, que quer velocidade e liberdade, que precisa ir trabalhar com um carro prático, ou fazer um rally nas montanhas. Quando a mulher aparece, é sempre no banco do passageiro, apenas ouvindo música ou controlando a bagunça das crianças no banco de trás.


Mulheres compram o próprio carro. Os usam para ir ao trabalho e para praticar esportes radicais. Sabem dirigir muito bem. Não são apenas as babás das crianças, enquanto "a pessoa capaz de dirigir" faz seu papel de homem. Argh.


Por fim (?), campanhas publicitárias de produtos que inquestionavelmente colaboram e sustentam o machismo: produtos de limpeza e serviços de casa em geral. Sobre estes, não é preciso grande explicação, certo? Quem são as protagonistas de propagandas de detergente, limpa-pisos, supermercados, sabão em pó, máquinas de lavar e geladeiras?


As mulheres. Pois, para a mídia machista, somos e sempre seremos as serviçais da casa, não importa o homem que esteja casado ou morando conosco. Para a mídia machista, sempre seremos as que sabem, "por natureza", arrumar uma casa, lavar uma louça e fazer uma comida. Pois aviso que quando nasci, não sabia lavar louça nem pegar numa vassoura - fui ensinada a fazer isso. Enquanto muitos homens da minha família não foram. Não é da nossa natureza sermos serviçais - assim como não é da natureza dos homens não fazerem serviços domésticos.


Além do protesto contra as campanhas publicitárias machistas, também focaremos na cobertura das Olimpíadas de 2012. Quem vir uma notícia em que não haja corpos delineados como informação principal, ou eleição da "musa de tal esporte", por favor, nos notifique, que premiaremos como exceção. A mulher não é identificada como esportista pela mídia machista - apenas como corpos que se movimentam sensualmente para o prazer do homem. Foi tosco ler isso? É tosco saber que é verdade também.






Imagem de divulgação feita por Jullie Utsch para a Marcha de BH






Objetivos da Marcha


Em primeiro lugar, conscientização. A mídia machista e a população alienada se retroalimentam. A população é manipulada pela mídia e se deixa levar pelo o que passa na televisão e nos jornais - nem tudo é verdade. É preciso refletir sobre tudo o que se vê no meio midiático, sobre o que é válido e não é, sobre o que é realidade e o que está sendo distorcido. A mídia machista contribui para uma população machista. Não queremos fazer parte desta população alienada, e por isso, queremos conscientizar e informar sobre o desserviço que a mídia machista nos presta.


Em segundo lugar, pressionamento ao CONAR, para a retirada imediata da propaganda abusiva da Nova Schin de circulação. E protesto, árduo, à Nova Schin, exigindo retratação, além de boicote temporário.


E em terceiro lugar, atentar a sociedade para a causa feminista, que luta para a visibilidade numa sociedade machista e opressora - mesmo que por baixo dos panos. Uma sociedade que, mesmo que não grite aos quatro ventos, julga uma mulher que se veste de forma provocante, não aceita o fato de trabalhar fora e sere independente, acha que é obrigação feminina qualquer coisa relacionada à serviços domésticos, e sim, confirma a ideia de que somos brindes sexuais. Tudo isso em voz baixa. Queremos calar essa voz.




Sou homem. Porque devo participar?


Essa luta é de todxs! Devemos saber que o machismo não agride só às mulheres, mas também aos homens, que são restritos à sempre serem bons em tudo, viris, provedores à todo momento, caçadores natos e incansáveis sexualmente. Qualquer homem normal sabe que isso não é verdade, e que ter de se apresentar desta forma não é algo benéfico.


Além disso, é importante estar ciente do contexto no qual está inserida a mulher atual, a fim de respeitá-las e lutar lado a lado por direitos igualitários. A mídia machista também atinge os homens. Essa luta também é sua.



Porquê é importante você, sendo homem ou mulher, participar?


A Marcha acontecerá em vários estados, por isso grande parte dos brasileiros poderá participar. Se você leu este texto e pensou: "Ok, já sei que grande parte da mídia é machista, já resolvi meu problema, não preciso ir à essa Marcha", se enganou. Um dos objetivos da Marcha é conscientizar o maior número de pessoas possível. Para isso, é preciso sairmos às ruas, nos juntar em manifesto, fazer barulho! É preciso somar na manifestação e na organização.


A Marcha é importante. A causa é importante. Não deixe de participar.








Junte-se à organização da sua cidade, com divulgação, confecção de cartazes e sua voz, no dia 25 de agosto de 2012, às 14hrs. Não vamos nos calar! A mídia machista não fala por nós!


Na página principal da Marcha Nacional Contra a Mídia Machista, você vê updates do desenrolar da Marcha e a organização de cada cidade.


Confirme presença em sua cidade e convide os seus amigos para participar do evento no Facebook:


Belo Horizonte - Rio de Janeiro - São Paulo - Campinas - Campo Grande - Porto Alegre - Florianópolis - Recife - Distrito Federal


Se sua cidade não está participando da Marcha, reivindique a inclusão dela aqui.



Somos mulheres que trabalham e compram sua própria cerveja! Não somos serviçais dos homens, nem recompensa: somos consumidoras! Somos mulheres que compram os próprios carros, não somos apenas as passageiras que falam de novela e não sabem dirigir.

Somos mulheres que trabalham em dupla jornada, que não passam a vida apenas pensando em sapatos e cosméticos. Somos mulheres que dirigem empresas, são chefes de família, sustentam filhos sozinhas e ainda lutam por seus direitos.

Somos mulheres que sentem prazer sexual, e não desempenham apenas o papel de instrumento do prazer sexual dos homens. Somos mulheres que lutam. E se a mídia não quer nos retratar dessa forma, nós mesm@s iremos mostrar a que viemos!




Por Maria Beatriz
(@imbiacentrismo)
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Thursday, June 7, 2012

Mama Cass, uma feminista de 50 anos atrás

 WILD WOMEN DON'T GET THE BLUES
 



Mama Cass Elliot with The Big 3 - Wild Women (1963 - EP version)


 
Well these women always ravin' 'bout their monkey men,
About their triflin' husbands and their no-good friends.
Well, peaceful women they sit around all day and moan.
They're wonderin' why their wanderin' papas don't come home.
Wild women don't worry, wild women don't get the blues.

Well, I've got a disposition, and a way of my own,
If my man don't act right, he's gonna find a new home.
I'll go out and drink good whiskey, walk the streets all night,
And kick my man out if he don't do me right.
'Cause wild women don't worry, wild women don't get the blues.

Well, you'll never get nothin' by bein' an angel, child
Girls you better change your ways of living, and real wild.
I wanna tell you somethin' you know I wouldn't tell you no lie.
Wild women are the only kind that ever get by.
'Cause wild women don't worry, wild women don't get the blues.

I said wild women don't worry, wild women don't get the blues.

Monday, May 28, 2012

Marcha das Vadias, Violência e Feminismo



A Marcha das Vadias - "SlutWalk" - começou no Canadá depois que um policial recomendou às mulheres de uma universidade que não se vestissem "como vadias" para não serem estupradas. Isso gerou uma enorme revolta e as mulheres decidiram fazer uma marcha em protesto a essa ideia.

O que me encanta no SlutWalk foi que a inversão do conceito, de modo a derrubar completamente a possibilidade de continuar aplicando-o. Se todas somos "vadias" de uma forma ou de outra, então isso não vem mais ao caso. Todas merecem respeito, porque o conceito de "respeitabilidade" foi posto em cheque.

Reportagem sobre a Marcha das Vadias em Porto Alegre:



E a verdade é que qualquer mulher, por qualquer detalhe, poderá ser classificada como "vadia". Se deu, é vadia; se não deu, está de frescura e é vadia também; se usa roupa curta, é vadia; se usa roupa discreta, está "se fazendo de santa", mas no fundo é vadia também; e por aí vai.

É de uma coragem tremenda dizer "Se ser livre é ser vadia, então somos todas vadias!" Essa é a mudança de foco que precisava acontecer. E tem outro detalhe: se o estupro fosse realmente algo provocado por usar-se pouca roupa, o caminho de volta das praias teria recorde de casos de estupro.

Eu também sou classificada de "vadia" por uma certa pessoa. Não nestes exatos termos, mas a ideia é a mesma. Não importa que eu seja casada com o mesmo homem há mais de 37 anos em regime de monogamia e fidelidade, não importa que eu não seja lésbica, não importa que eu nunca tenha feito um aborto, não importa que eu não use drogas, nada disso importa.

Sou "vadia" por ser ateia, por ser a favor dos direitos LGBT, por ser a favor da legalização do aborto, por ser feminista. Então, já que eu também sou "vadia", essa marcha também tem a ver comigo.

Aqui algumas fotos das marchas pelo Brasil afora.

O único incidente destoante foi quando um grupo de pessoas tentou entrar em uma igreja e uma das mulheres tirou a blusa no pátio da igreja. Esse ato não fazia parte do roteiro, e eu lamento que algumas pessoas tenham tido essa falta de noção.

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Na Zero Hora de domingo teve uma reportagem sobre a violência contra mulheres.




Sempre tem gente que diz que "o feminismo não é mais necessário". Acontece que é sim!

O foco mudou, não precisamos mais lutar pelo direito de votar, mas ainda há muita coisa a melhorar, principalmente no tocante à mentalidade da sociedade que ainda não está levando a sério a questão da violência contra as mulheres:





Ainda temos o longo caminho pela frente.

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Sunday, May 20, 2012

Robert Spitzer pede desculpas por estudo sobre "cura" para gays

 Famoso psiquiatra pede desculpas por estudo sobre "cura" para gays

Por Benedict Carey
The New York Times, em Princeton (EUA)


O fato foi simplesmente que ele fez tudo errado, e ao final de uma longa
e revolucionária carreira, não importava com quanta frequência
estivesse certo, o quão poderoso tinha sido ou o que isso significaria
para seu legado.

O dr. Robert L. Spitzer, considerado por alguns como o pai da
psiquiatria moderna, que completa 80 anos nesta semana, acordou
recentemente às 4 horas da madrugada ciente de que tinha que fazer algo
que não é natural para ele.

Ele se esforçou e andou cambaleando no escuro. Sua mesa parecia
impossivelmente distante; Spitzer sofre de mal de Parkinson e tem
dificuldade para caminhar, se sentar e até mesmo manter sua cabeça
ereta.

A palavra que ele às vezes usa para descrever essas limitações
–patéticas– é a mesma que empregou por décadas como um machado, para
atacar ideias tolas, teorias vazias e estudos sem valor.


Agora, ali estava ele diante de seu computador, pronto para se retratar
de um estudo que realizou, uma investigação mal concebida de 2003 que
apoiava o uso da chamada terapia reparativa para “cura” da
homossexualidade, voltada para pessoas fortemente motivadas a mudar.


O que dizer? A questão do casamento gay estava sacudindo novamente a
política nacional. O Legislativo da Califórnia estava debatendo um
projeto de lei proibindo a terapia como sendo perigosa. Um jornalista de
revista que se submeteu à terapia na adolescência, o visitou
recentemente em sua casa, para explicar quão miseravelmente
desorientadora foi a experiência.


E ele soube posteriormente que um relatório da Organização Mundial de
Saúde, divulgado na quinta-feira (17), considera a terapia “uma séria
ameaça à saúde e bem-estar –até mesmo à vida– das pessoas afetadas”.


Os dedos de Spitzer tremiam sobre as teclas, não confiáveis, como se
sufocassem com as palavras. E então estava feito: uma breve carta a ser
publicada neste mês, na mesma revista onde o estudo original apareceu.


“Eu acredito que devo desculpas à comunidade gay”, conclui o texto.
 


Perturbador da paz


A ideia de estudar a terapia reparadora foi toda de Spitzer, dizem
aqueles que o conhecem, um esforço de uma ortodoxia que ele mesmo ajudou
a estabelecer.


No final dos anos 90 como hoje, o establishment psiquiátrico
considerava a terapia sem valor. Poucos terapeutas consideravam a
homossexualidade uma desordem.


Nem sempre foi assim. Até os anos 70, o manual de diagnóstico do campo
classificava a homossexualidade como uma doença, a chamando de
“transtorno de personalidade sociopática”. Muitos terapeutas ofereciam
tratamento, incluindo os analistas freudianos que dominavam o campo na
época.


Os defensores dos gays fizeram objeção furiosamente e, em 1970, um ano
após os protestos de Stonewall para impedir as batidas policiais em um
bar de Nova York, um grupo de manifestantes dos direitos dos gays
confrontou um encontro de terapeutas comportamentais em Nova York para
discutir o assunto. O encontro foi encerrado, mas não antes de um jovem
professor da Universidade de Columbia sentar-se com os manifestantes
para ouvir seus argumentos.


“Eu sempre fui atraído por controvérsia e o que eu ouvi fazia sentido”,
disse Spitzer, em uma entrevista em sua casa na semana passada. “E eu
comecei a pensar, bem, se é uma desordem mental, então o que a faz
assim?”


Ele comparou a homossexualidade com outras condições definidas como
transtornos, tais como depressão e dependência de álcool, e viu
imediatamente que as últimas causavam angústia acentuada e dano,
enquanto a homossexualidade frequentemente não.


Ele também viu uma oportunidade de fazer algo a respeito. Spitzer era
na época membro de um comitê da Associação Americana de Psiquiatria, que
estava ajudando a atualizar o manual de diagnóstico da área, e
organizou prontamente um simpósio para discutir o lugar da
homossexualidade.


A iniciativa provocou uma série de debates amargos, colocando Spitzer
contra dois importantes psiquiatras influentes que não cediam. No final,
a associação psiquiátrica ficou ao lado de Spitzer em 1973, decidindo
remover a homossexualidade de seu manual e substituí-la pela alternativa
dele, “transtorno de orientação sexual”, para identificar as pessoas
cuja orientação sexual, gay ou hétero, lhes causava angústia.


Apesar da linguagem arcana, a homossexualidade não era mais um
“transtorno”. Spitzer conseguiu um avanço nos direitos civis em tempo
recorde.


“Eu não diria que Robert Spitzer se tornou um nome popular entre o
movimento gay mais amplo, mas a retirada da homossexualidade foi
amplamente celebrada como uma vitória”, disse Ronald Bayer, do Centro
para História e Ética da Saúde Pública, em Columbia. “‘Não Mais Doente’
foi a manchete em alguns jornais gays.”


Em parte como resultado, Spitzer se encarregou da tarefa de atualizar o
manual de diagnóstico. Juntamente com uma colega, a dra. Janet
Williams, atualmente sua esposa, ele deu início ao trabalho. A um ponto
ainda não amplamente apreciado, seu pensamento sobre essa única questão
–a homossexualidade– provocou uma reconsideração mais ampla sobre o que é
doença mental, sobre onde traçar a linha entre normal e não.


O novo manual, um calhamaço de 567 páginas lançado em 1980, se
transformou em um best seller improvável, tanto nos Estados Unidos
quanto no exterior. Ele estabeleceu instantaneamente o padrão para
futuros manuais psiquiátricos e elevou seu principal arquiteto, então
próximo dos 50 anos, ao pináculo de seu campo.


Ele era o protetor do livro, parte diretor, parte embaixador e parte
clérigo intratável, rosnando ao telefone para cientistas, jornalistas e
autores de políticas que considerava equivocados. Ele assumiu o papel
como se tivesse nascido para ele, disseram colegas, ajudando a trazer
ordem para um canto historicamente caótico da ciência.


Mas o poder tem seu próprio tipo de confinamento. Spitzer ainda podia
perturbar a paz, mas não mais pelos flancos, como um rebelde. Agora ele
era o establishment. E no final dos anos 90, disseram amigos, ele
permanecia tão inquieto como sempre, ávido em contestar as suposições
comuns.


Foi quando se deparou com outro grupo de manifestantes, no encontro
anual da associação psiquiátrica em 1999: os autodescritos ex-gays. Como
os manifestantes homossexuais em 1973, eles também se sentiam
ultrajados por a psiquiatria estar negando a experiência deles –e
qualquer terapia que pudesse ajudar.


A terapia reparativa



A terapia reparativa, às vezes chamada de terapia de “conversão” ou
“reorientação sexual”, é enraizada na ideia de Freud de que as pessoas
nascem bissexuais e podem se mover ao longo de um contínuo de um extremo
ao outro. Alguns terapeutas nunca abandonaram a teoria e um dos
principais rivais de Spitzer no debate de 1973, o dr. Charles W.
Socarides, fundou uma organização chamada Associação Nacional para
Pesquisa e Terapia da Homossexualidade (Narth, na sigla em inglês), no
sul da Califórnia, para promovê-la.


Em 1998, a Narth formou alianças com grupos de defesa socialmente
conservadores e juntos eles iniciaram uma campanha agressiva, publicando
anúncios de página inteira em grandes jornais para divulgar histórias
de sucesso.


“Pessoas com uma visão de mundo compartilhada basicamente se uniram e
criaram seu próprio grupo de especialistas, para oferecer visões
alternativas de políticas”, disse o dr. Jack Drescher, psiquiatra em
Nova York e coeditor de “Ex-Gay Research: Analyzing the Spitzer Study
and Its Relation to Science, Religion, Politics, and Culture”.


Para Spitzer, a pergunta científica no mínimo valia a pena ser feita:
qual era o efeito da terapia, se é que havia algum? Estudos anteriores
tinham sido tendenciosos e inconclusivos.


“As pessoas me diziam na época: ‘Bob, você vai arruinar sua carreira,
não faça isso’”, disse Spitzer. “Mas eu não me sentia vulnerável.”




Ele recrutou 200 homens e mulheres, dos centros que realizavam a
terapia, incluindo o Exodus International, com sede na Flórida, e da
Narth. Ele entrevistou cada um profundamente por telefone, perguntando
sobre seus impulsos sexuais, sentimentos, comportamentos antes e depois
da terapia, classificando as respostas em uma escala.


Spitzer então comparou os resultados de seu questionário, antes e
depois da terapia. “A maioria dos participantes relatou mudança de uma
orientação predominante ou exclusivamente homossexual antes da terapia,
para uma orientação predominante ou exclusivamente heterossexual no ano
passado”, concluiu seu estudo.


O estudo –apresentado em um encontro de psiquiatria em 2001, antes da
publicação– tornou-se imediatamente uma sensação e grupos de ex-gays o
apontaram como evidência sólida de seu caso. Afinal aquele era Spitzer, o
homem que sozinho removeu a homossexualidade do manual de transtornos
mentais. Ninguém poderia acusá-lo de tendencioso.


Mas líderes gays o acusaram de traição e tinham suas razões.


O estudo apresentava problemas sérios. Ele se baseava no que as pessoas
se lembravam de sentir anos antes –uma lembrança às vezes vaga. Ele
incluía alguns defensores ex-gays, que eram politicamente ativos. E não
testava uma terapia em particular; apenas metade dos participantes se
tratou com terapeutas, enquanto outros trabalharam com conselheiros
pastorais ou em grupos independentes de estudos da Bíblia.


Vários colegas tentaram impedir o estudo e pediram para que ele não o publicasse, disse Spitzer.


Mas altamente empenhado após todo o trabalho, ele recorreu a um amigo e
ex-colaborador, o dr. Kenneth J. Zucker, psicólogo-chefe do Centro para
Vício e Saúde Mental, em Toronto, e editor do “Archives of Sexual
Behavior”, outra revista influente.


“Eu conhecia o Bob e a qualidade do seu trabalho, e concordei em publicá-lo”, disse Zucker em uma entrevista na semana passada.


O artigo não passou pelo habitual processo de revisão por pares, no
qual especialistas anônimos avaliam o artigo antes da publicação.


“Mas eu lhe disse que o faria apenas se também publicasse os
comentários” de resposta de outros cientistas para acompanhar o estudo,
disse Zucker.


Esses comentários, com poucas exceções, foram impiedosos. Um citou o
Código de Nuremberg de ética para condenar o estudo não apenas como
falho, mas também moralmente errado.


“Nós tememos as repercussões desse estudo, incluindo o aumento do
sofrimento, do preconceito e da discriminação”, concluiu um grupo de 15
pesquisadores do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York, do qual
Spitzer era afiliado.


Spitzer não deixou implícito no estudo que ser gay era uma opção, ou
que era possível para qualquer um que quisesse mudar fazê-lo com
terapia. Mas isso não impediu grupos socialmente conservadores de
citarem o estudo em apoio a esses pontos, segundo Wayne Besen, diretor
executivo da Truth Wins Out, uma organização sem fins lucrativos que
combate o preconceito contra os gays.


Em uma ocasião, um político da Finlândia apresentou o estudo no
Parlamento para argumentar contra as uniões civis, segundo Drescher.


“Precisa ser dito que quando este estudo foi mal utilizado para fins
políticos, para dizer que os gays deviam ser curados –como ocorreu
muitas vezes. Bob respondia imediatamente, para corrigir as percepções
equivocadas”, disse Drescher, que é gay.


Mas Spitzer não conseguiu controlar a forma como seu estudo era
interpretado por cada um e não conseguiu apagar o maior erro científico
de todos, claramente atacado em muitos dos comentários: simplesmente
perguntar para as pessoas se elas mudaram não é evidência de mudança
real. As pessoas mentem, para si mesmas e para os outros. Elas mudam
continuamente suas histórias, para atender suas necessidades e humores.


Resumindo, segundo quase qualquer medição, o estudo fracassou no teste
do rigor científico que o próprio Spitzer foi tão importante em exigir
por muitos anos.


Foram necessários 11 anos para ele reconhecer publicamente.


Inicialmente ele se agarrou à ideia de que o estudo era exploratório,
uma tentativa de levar os cientistas a pensarem duas vezes antes de
descartar uma terapia de cara. Então ele se refugiou na posição de que o
estudo se concentrava menos na eficácia da terapia e mais em como as
pessoas tratadas com ele descreviam mudanças na orientação sexual.


“Não é um pergunta muito interessante”, ele disse. “Mas por muito tempo
eu pensei que talvez não tivesse que enfrentar o problema maior, sobre a
medição da mudança.”


Após se aposentar em 2003, ele permaneceu ativo em muitas frentes, mas o
estudo da terapia reparativa permaneceu um elemento importante das
guerras culturais e um arrependimento pessoal que não o deixava em paz.
Os sintomas de Parkinson pioraram no ano passado, o esgotando física e
mentalmente, tornando ainda mais difícil para ele lutar contra as dores
do remorso.


E, em um dia em março, Spitzer recebeu um visitante. Gabriel Arana, um
jornalista da revista “The American Prospect”, entrevistou Spitzer sobre
o estudo sobre terapia reparativa. Aquela não era uma entrevista
qualquer; Arana se submeteu à terapia reparativa na adolescência e o
terapeuta dele recrutou o jovem para o estudo de Spitzer (Arana não
participou).


“Eu perguntei a ele sobre todos os seus críticos e ele disse: ‘Eu acho
que eles estão certos’”, disse Arana, que escreveu sobre suas próprias
experiências no mês passado. Arana disse que a terapia reparativa acabou
adiando sua autoaceitação e lhe induziu a pensamentos de suicídio. “Mas
na época que fui recrutado para o estudo de Spitzer, eu era considerado
uma história de sucesso. Eu teria dito que estava fazendo progressos.”


Aquilo foi o que faltava. O estudo que na época parecia uma mera nota
de rodapé em uma grande vida estava se transformando em um capítulo. E
precisava de um final apropriado –uma forte correção, diretamente por
seu autor, não por um jornalista ou colega.


Um esboço da carta já vazou online e foi divulgado.


“Você sabe, é o único arrependimento que tenho; o único profissional”,
disse Spitzer sobre o estudo, perto do final de uma longa entrevista. “E
eu acho que, na história da psiquiatria, eu não creio que tenha visto
um cientista escrever uma carta dizendo que os dados estavam lá, mas
foram interpretados erroneamente. Que tenha admitido isso e pedido
desculpas aos seus leitores.”


Ele desviou o olhar e então voltou de novo, com seus olhos grandes cheios de emoção. “Isso é alguma coisa, você não acha?”

Tradutor: George El Khouri Andolfato
O original no The New York Times 
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