Thursday, October 22, 2009

A busca que levou 20 anos

Como eu cresci em uma família atéia e sempre encarei o ateismo como algo muito natural, eu nunca estudei ou pensei muito a respeito do assunto. Pode-se dizer que eu não tinha uma base sólida em termos de conhecimento e opiniões.
Por isso, aos 21 anos, eu comecei a questionar se não existia mesmo alguma coisa. É engraçado pensar que eu trilhei o caminho inverso da maioria dos ateus, e não descarto que fiz isso como uma ato de rebeldia contra meu pai.

Evidentemente o deus cristão, antropomórfico estava fora de questão, esse eu descartei aos 8 anos de idade, mas comecei a estudar Rosacrucianismo junto com meu marido, que apresentava o conceito deus = energia. Essa era uma idéia que eu conseguia aceitar, e comecei uma longa busca por causa disso. Em pouco tempo abandonamos o Rosacrucianismo, porque percebemos que havia muita enrolação nesses "ensinamentos" e que era uma organização bastante comercial, querendo vender correntinhas, incensos, etc.
Depois disso fizemos um daqueles cursos de "Poder Mental", e pesquisei Gnose e coisas desse tipo.

Mas o que realmente me pegou foi a astrologia. Estudei muito, comprei muito livros, aprendi a fazer mapa astral e acreditava realmente no que fazia. Isso é importante entender, nem todos os astrólogos(as) são charlatões. E também é muito importante analisar porque a astrologia parece funcionar. Mas isso fica para o próximo post.

Mudança total


Quando eu tinha 13 anos, isso foi em 1970, minha família toda veio de mudança para o Brasil. Foi uma viagem no tempo também, porque a mentalidade aqui correspondia à mentalidade da Finlândia na década de 50. A virgindade até o casamento, por exemplo, era ainda um assunto tabu.
Talvez por ser estrangeira a questão do ateismo a princípio nunca me causou problemas, mas eu também não falava muito sobre isso. Para mim era muito natural ser atéia e eu não via motivo para levantar o assunto.

Conheci o meu futuro marido apenas dois anos depois. Fazia pouco tempo que estavamos namorando quando, por influência de uma amiga, fui a uma cartomante. Essa mulher me disse que o namoro do momento não daria em nada e que eu conheceria o homem com quem casaria aos 19 anos (eu estava com 15). Agora, imaginem se eu acreditasse nisso! Acabou que a gente se casou 3 anos depois, e estamos casados até hoje. Em dezembro completamos 35 anos de casados.

Para casar houve uma certa polêmica. Eu não era batizada, e deixei bem claro que se eu tivesse que fazer isso para casar na igreja, então o casamento seria só no civil.
Resultado, o meu sogro tinha um parente pastor que concordou em nos casar assim mesmo. A verdade é que a família do meu marido não era particularmente religiosa, como muitos outros eles pertenciam à igreja por formalidade.
E eu continuei atéia ainda por um bom tempo depois disso.

Aprendendo a enfrentar a vida


Nada a ver com ateismo, mas eu creio que tem a ver com a capacidade de enfrentar coisas não muito agradáveis.

Quando eu tinha 9 anos, fui ao dentista pela primeira vez. Eu estava muito nervosa e com medo por causa de todas as histórias que tinha ouvido sobre como era horrível ir ao dentista. Na hora de fazer a anestesia senti muita dor, e empurrei a mão da atendente, não deixei fazer. Comecei a chorar, mas tanto a atendente quanto o dentista foram muito gentis e me disseram que quem sabe eu voltava outro dia então.

Até hoje eu não entendo como é que com essa idade fui capaz de um raciocínio desses, mas eu pensei: "Se eu sair daqui agora, eu não vou conseguir voltar". Juntei toda a minha coragem e deixei que fizessem a anestesia e arrumassem o meu dente. Eu entendi que se eu não fizesse isso naquele momento, eu ia passar a vida inteira fugindo.

Isso tem um precedente. Aos 7 anos eu não permiti que me vacinassem na escola, e eu senti muita vergonha depois por não ter sido capaz de enfrentar aquilo. Ter sido capaz de enfrentar o medo dois anos depois fez com que eu me sentisse muito melhor, e com certeza teve reflexos nas minhas atitudes futuras.

Wednesday, October 21, 2009

Uma família atéia

Meus pais se casaram só no civil também, e nunca mencionaram o assunto religião com os filhos. Mas quando eu comecei a frequentar o Jardim de Infância o assunto apareceu. Eu, com 4 anos, é claro que fiquei encantada com as historinhas tão bonitinhas que a Tia contava sobre aquele homem tão bonzinho que gostava tanto de crianças. Lembro que fiquei decepcionadíssima quando me explicaram que não tinha como eu conhecê-lo, porque ele já tinha morrido.

Eu cheguei a ir algumas vezes à Escola Dominical com alguma amiga, e meus pais nunca se opuseram. Só lembro que meu pai me disse que "deuses" existiram muitos e que esse era apenas mais uma das muitas mitologias que haviam. Durante 4 anos da minha infância eu fui teista, mas aos 8 anos me bateu uma angústia enorme, e eu senti que não conseguia mais acreditar naquilo. Isso é meio pesado para a cabeça de uma criança, e eu rezei como se tivesse que dar uma explicação àquele deus no qual tinham me ensinado a acreditar. Até decidi mentalmente que quando eu tivesse 16 anos eu ia pensar no assunto novamente. Acabei fazendo isso só aos 21.

A outra atéia de bom humor


Minha vó, Greta Dahlström, se desligou da igreja para casar com o meu avô. Como a maioria das pessoas, ela só estava cadastrada na igreja por tradição, costume, coisa que acontece até hoje.
Ela era uma pessoa muito calma, tímida e tinha um jeito muito bem humorado de se expressar. Uma vez umas Testemunhas de Jeová bateram na porta dela para tentar convencê-la a entrar para a seita deles com o argumento de que as vagas no céu eram limitadas (eles realmente pensam assim) e que ela devia garantir a dela. Ela calmamente respondeu que preferia deixar o lugar dela para alguém mais "ansioso".

Dizem que sou muito parecida com ela. Bom, pelo menos o bom humor é certo que eu herdei.

O primeiro casamento civil da Finlândia

(na imagem: meu avô, Svante Dahlström)

Então, eu prometi contar uma história interessante sobre um amigo do meu avô. Como eu disse na postagem anterior, até 1921 não havia Registro Civil na Finlândia, a única opção era casar na igreja e batizar os filhos. Isso contava como registro oficial e continua até hoje, ou as pessoas casam na igreja ou no cartório. E os filhos são ou batizados ou inscritos no Registro Civil.


A história se passa em 1914, antes de instituirem o tal Registro Civil. O amigo se chamava Rolf Lagerborg e eles pertenciam a uma organização de livres-pensadores, a Associação Estudantil Prometheus (http://www.dlc.fi/~etkirja/AtheismInFinland.htm), que foi fundada em 1905-1906 e lutava pelo direito à liberdade religiosa. Ele tinha uma noiva, mas não admitia se casar na igreja. Então os dois combinaram um esquema que gerou grande escândalo na época, mas funcionou.

A noiva o processou por ter "coabitado" com ela, sendo que depois se recusava a "levá-la para diante do pastor". Ele disse para o juiz que de fato ele se recusava a fazer isso, mas que se o juiz assim decidisse, e o "condenasse" a estar casado com ela, isso ele aceitaria. E foi isso mesmo que aconteceu.

Tuesday, October 20, 2009

Uma longa tradição


Eu sou atéia de terceira ou quarta geração. De terceira eu tenho certeza, os meus avós paternos eram ateus declarados. No entanto eu tenho quase certeza de que os meus bisavós também eram (imagem ao lado: minha bisavó). Nasci na Finlândia onde morei até os meus 13 anos. O ateismo lá creio que tem sua origem principalmente no Iluminismo Francês. Digo isso porque muita gente supõe, errôneamente, que o ateismo deriva do comunismo.

Meu avô paterno fazia parte de um grupo de livres-pensadores no início do século passado. Esse grupo lutava pelo direito de não ter que casar na igreja e batizar os filhos, pois essa era a única opção na Finlândia até 1921. Até hoje existe uma igreja estatal lá, por incrível que pareça a Finlândia não é um país laico. No entanto a religião lá não interfere em assuntos de estado da mesma forma que no Brasil. Parece paradoxal, e é. Creio que é muito mais uma questão de mentalidade do que o que consta na Constituição.

Quanto ao meu avô, existe uma história interessante sobre um amigo dele, participante desse mesmo grupo. Mas isso eu conto na próxima postagem.