Wednesday, October 28, 2009

"O Ateismo traz muita paz"

O empurrão final para que eu desistisse da astrologia em particular, e da minha busca em geral, foi muito por eu ter conhecido a STR. Quando cheguei nesse ponto, foi incrível a paz que eu senti. Foi uma sensação de alívio muito grande, tipo "ufa! não preciso mais me preocupar com isso."

Tem uma comunidade no Orkut que se chama "O Ateismo traz muita Paz". E quem a fez, foi porque viu essa frase em uma postagem minha em outra comunidade.
Não estou dizendo que todos vão, ou devem, se sentir assim. Para chegar a esse ponto é preciso primeiro enfrentar o lado negativo da descrença, que é o fato de não haver nenhuma força para nos proteger. Se conseguirmos superar o medo da "solidão cósmica", o que vem de bônus é uma grande liberdade. E essa liberdade tem um contraponto extremamente importante, que é a responsabilidade.
Não temos ninguém para responsabilizar exceto nós mesmos, temos que assumir totalmente tudo que fazemos. E as pessoas assumem uma importância ainda maior, porque não haverá uma segunda chance. Depois que a pessoa morre, o que não foi feito ou dito, não será mais feito ou dito, então temos que tratar bem a pessoa enquanto está aqui conosco.

Em janeiro de 2005 saiu uma matéria na Revista das Religiões, intitulada "Em que crêem os que não crêem". Foi feita uma entrevista comigo por e-mail, mas aproveitaram muito pouco de tudo que escrevi. Por isso coloquei a entrevista na íntegra à disposição no meu site do Multiply . No final da entrevista eu falei justamente nessa questão da paz que algumas pessoas encontram no ateismo.

Tuesday, October 27, 2009

A História das Meninas Dahlström


(contribuição da minha irmã, Synnöve)

Na foto: Meninas Dahlström em cena: Mais um Concurso Cultural na TV da Finlândia em que as meninas ganharam o prêmio máximo. Na foto, Åsa, Synnöve, Bodil e Tove sentadas à frente, tendo o apoio do irmão Yngve, Pai Klas e mãe Iris.

É de conhecimento comum que em 1970 mudou-se para o Brasil a família Dahlström, vinda de um país distante, ao norte do mundo, a Finlândia. Da família faziam parte pai e mãe ecinco filhos, dos quais apenas um, o primogênito era do sexo masculino, as demais (em todos os sentidos) eram as meninas Dahlström, que cruzaram a linha do Equador, mas deixaram para trás um país e uma cidadezinha, Jakobstad, marcados para sempre.
- Vocês estão se comportando como as meninas Dahltröm! - Era uma frase ouvida por muito tempo pelas crianças de Jakobstad e, segundo depoimentos, não de uma forma positiva. Entenda, caro leitor, que a idade das meninas em questão variava de 3 a 12
anos e nessa tenra idade que precede a adolescência nenhum comportamento é negativo.

Na verdade, o comportamento das meninas era extremamente positivo, porém mal compreendido. Líderes natas, ainda no berço conseguiam ganhar qualquer disputa cultural e intelectual sem dificuldade e tinham o hábito de conseguir provar para qualquer pessoa que estavam sempre certas, portanto, era natural que fossem obedecidas. Apenas uma questão de lógica...
Bom, estudos deduziram que, por tratar-se de uma família grande, um tanto atípica para os padrões sociais da época, em que a média de filhos por família era de 2.12 (não sei quantos filhos alguém deve ter para completar o ponto12, enfim, estatística!), os Dahlström formavam um grupo capaz de preencher todos os espaços físicos e sonoros de uma simples festinha familiar.
Somente uma das meninas, a mais velha, participava dos escoteiros (sim,na Finlândia é chamado escoteiros para meninos e meninas), mas muitos anos depois de a família ter se mudado para o Brasil os instrutores ainda aterrorizavam as pequenas lobinhas dizendo que se não se comportassem, pareceriam “as meninas Dahlström”. Ainda nos anos 80era possível escutar o suspiro de alívio dos monitores por não terem que
enfrentar as outras três...
A nova geração de meninas Dahlström se mostrou tão forte e determinada quanto a anterior e, do mesmo modo, mal compreendidas. É pena que algumas pessoas ainda insistam em confundir determinação com teimosia e convicção com autoridade...

O primeiro encontro da STR

Em novembro de 2000 eu estava passando uns dias em Porto Alegre, e conversei pelo ICQ com alguns dos outros editores da STR que também moravam lá. Combinamos de nos encontrar em um bar conhecido simplesmente para nos conhecermos, todos estavam muito curiosos. Um deles me perguntou que altura eu tinha, achava que por ser escandinava devia ser bastante alta. Respondi que eu não ia dizer que altura eu tinha, que ele ia ver isso pessoalmente, mas que eu garantia que ele iria se surpreender muito com a minha altura.
Na hora do encontro foi muito engraçado, porque ele havia deduzido que eu devia ser excepcionalmente alta. Quando me viu teve uma surpresa muito maior do que imaginava. Acontece que eu tenho 1,50m de altura.(*)

O encontro foi ótimo, e tivemos vários outros depois. Com o tempo alguns se mudaram e a gente acabou se distanciando, mas ainda tenho contato com vários deles e a amizade continua.

(*) Essa foi outra questão que eu tive que resolver intimamente quando adolescente. Com 14 anos eu entendi que mais do que isso eu não iria crescer. E eu lembro exatamente onde eu estava, pensando comigo mesma, "e agora? o que faço? aceito numa boa, ou uso salto alto e tento parecer mais alta do que sou?". E a resposta veio muito rápido, e foi bem prática. Pensei, "quer saber? não gosto de salto alto!". A partir daí sempre convivi numa boa com a minha altura (ou falta dela). É aquela coisa de aceitar aquilo que não podemos mudar.

Sunday, October 25, 2009

Uma janela para o mundo

Para quem tem menos de 20 anos, pode ser difícil imaginar um mundo sem a internet. Quando surgiu ainda era algo inacessível à maioria das pessoas, ainda mais no interior, a 500 km da civilização. Eu me sentia muito isolada, muito sozinha, porque eu não tinha quase ninguém com quem pudesse trocar idéias.

A internet mudou isso. Deve ter sido em 1999 que começamos a usá-la. No início não haviam tantos recursos, a conexão era discada, cara, e não havia ainda tanto material para pesquisar. Mas foi assim que descobri a STR - Sociedade da Terra Redonda, em 2000. Um site ateu, isso era inusitado! Eu salvava as páginas para ler depois, para não ficar conectada muito tempo. Descobri que eles precisavam de editores, inclusive de inglês. Mandei um e-mail e me ofereci. Me aceitaram e comecei a traduzir textos para o site e a participar de algumas discussões. Isso tudo me ajudou muito a definir o que eu pensava, todo o processo de raciocínio que eu não tinha passado na adolescência por falta de oportunidade, passei depois dos 40.
Vários editores moravam em Porto Alegre, então nós nos reunímos várias vezes pessoalmente. Foi uma experiência enriquecedora realmente.

A STR durou uns 4 anos, e depois simplesmente estancou, porque o Presidente não tinha mais tempo para se dedicar, e não delegava a manutenção do site para mais ninguém. Foi uma pena, mas em todo caso foi um precursor de vários outros movimentos, e cumpriu o seu papel. E teve uma reportagem na Veja em 2002 sobre ateísmo onde eu apareci. http://veja.abril.com.br/050602/p_084.html

Até hoje a única forma de muitos ateus encontrar outros é pela internet. E muitas organizações virtuais se tornaram possíveis só por causa disso em um país tão grande como o Brasil. Então o Santo Google é o nosso santo padroeiro e Bill Gates é o nosso Profeta. ;-D

Saturday, October 24, 2009

Minha mãe, a rebelde-mor


Minha mãe me ensinou que não precisamos aceitar as convenções, devemos sempre perguntar porquê. Se não há uma boa razão para mantê-las podemos muito bem descartá-las. Eu me lembro que desde sempre ela ensinou aos filhos que os homossexuais, por exemplo deviam ser aceitos como são. E lembro dela dizer a uma pessoa que não havia nada de errado em um casal de namorados dormir juntos, isso não era "pecado". Só era errado fazer mal a outras pessoas.

Quando ela lia histórias para a gente dormir era fascinante, porque ela fazia teatro amador, então ela fazia vozes diferentes para diferentes personagens e encenava a história de tal maneira que parecia que a gente estava vendo tudo acontecer.
Até hoje quando eu leio eu mergulho no livro de tal forma que eu sou capaz de ficar em dúvida depois se li o livro ou vi o filme.

Uma coisa é certa, em 99% das vezes o livro é infinitamente melhor que o filme.

Sofia, uma mulher de coragem


Minha bisavó viveu nos tempos em que a Finlândia pertenceu à Rússia. Os finlandeses nunca aceitaram isso e se insurgiam o quanto podiam. A Sofia viajava para Suécia e na volta trazia folhetos subversisvos em bolsos escondidos na sua saia de baixo. Também escondia chapas para imprimir propaganda subversiva no fundo da lata de biscoitos. Às vezes vinham pessoas fugindo do lado russo e encontravam abrigo na casa dos meus bisavós.

É muito interessante saber dessas coisas, e tenho orgulho de pertencer a uma família com tantas histórias de coragem para contar.

Histórias ainda mais antigas - Rebeldia herdada?

Minha vó compilou um livro a partir dos diários e cartas da minha bisavó. Por causa disso eu sei de coisas sobre os meus antepassados desde aproximadamente 1750. Um deles, devia ser o meu quintavô ou sextavô, era general no exército do rei da Suécia (a Finlândia era território sueco até 1809, quando foi conquistado pela Rússia).

Então, contam que o rei era um rapaz muito jovem, impulsivo e mimado, que só queria promover guerras. Esse meu antepassado teria perdido a paciência e dado um tapa no rei. Por causa disso ele foi condenado à morte.

A esposa dele vestiu o seu melhor vestido, o que ela havia usado para se casar, e foi pedir clemência, mas de nada adiantou. Ele foi decapitado pouco depois.

Diz a lenda familiar que o tecido desse vestido foi usado para revestir uma cadeira, e diz a minha bisavó que quando menina ela fez um furo na parte de trás do encosto da dita cadeira e viu, através de várias camadas sobrepostas, um tecido finamente bordado.

Será que a rebeldia é genética?