Há 17 anos, 05 de junho de 2002, saiu a reportagem sobre ateus em que uma das pessoas entrevistadas fui eu.
Copiei os comentários que saíram na edição seguinte:
8 - A busca do conhecimento leva, obrigatoriamente, ao ateísmo?
E na próxima resposta acabei falando de novo neste conceito:Re: Não, mas favorece. Depende muito de que premissa a pessoa parte. Conheço pessoas que têm muito conhecimento, mas como partem da premissa de que existe um deus, só levam em consideração os argumentos que favorecem essa perspectiva. Para que o conhecimento leve ao ateísmo é necessário que a pessoa seja muito honesta, e que seja capaz de enfrentar algumas verdades muito duras, entre elas aquilo que eu chamo de ‘solidão cósmica’.
9 - O que é deus?
Re: Complicado. Acho que vem em parte da necessidade de se sentir protegido, em parte porque o ser humano não consegue aceitar a sua própria finitude. É difícil enfrentar a solidão cósmica.Segundo Freud, ‘deus’ é a figura paterna, e tanto pode ser protetor ou punitivo, ou as duas coisas. De qualquer forma, a religiosidade extrema geralmente é sinal de imaturidade, incapacidade de tomar decisões.
Olhando na internet, eu vi que tem a ver com Carl Sagan, mas tem a ver com o fato de não termos contato, nem saber se existem outros habitantes em outros planetas. Eu comecei a usar o termo para definir também a sensação de desamparo resultante de não acreditar em um deus. Essa idéia eu peguei de um livro de Flávio Gikovate, mas acho que ele não usou essa expressão.
A idéia é que perante o Universo somos nada, totalmente insignificantes. Não havendo um deus para nos proteger e guiar (e punir), estamos sozinhos, desamparados. Somos obrigados a decidir por nós mesmo, assumir a responsabilidade total pelas nossas vidas, e isso é difícil. Isso torna as pessoas mais importantes, na medida em que são a única fonte de apoio. Também faz com que sejamos obrigados a aceitar a imperfeição como sendo inevitável, entender que a vida não é justa e o mundo não é bom, nem nunca será.
"Há algo de muito errado com um País em que as vítimas correm o risco de serem consideradas culpadas por decisões judiciais. Algo de substancial na própria ideia de justiça é ameaçado pela insensibilidade e pela cegueira moral de que nos fala Bauman. Todos devem concordar, a começar pelos melhores magistrados, que uma Justiça que não ofereça exemplos de retidão, que se dobre diante de privilégios, que alimente a obscuridade de atos tomados em benefício próprio, produz orfandade ainda mais radical do que aquela que a política já nos legou.
A pergunta, então, se confunde com o desespero:
e se nos faltarem juízes justos, recorremos a quem?"