Sunday, April 25, 2010
Criacionismo x Evolucionismo - Idade do Universo (farsa)
Esse rapaz, Daniel, tem vários outros videos que vale a pena assistir. O canal dele no Youtube é http://www.youtube.com/user/ddimensoes
Tudo que ele diz se aproveita. :)
O terrorismo psicológico dos arautos do apocalipse
Essa postagem está "no forno" há quase três meses. O assunto me foi sugerido por um amigo do Orkut, Fernando, que abriu um tópico sobre o assunto na comunidade "Sou feliz por ser ateu". O link que ele postou, do site Tempo Final, é um belo exemplo disso, e a impressão que dá é que o objetivo mesmo é vender filmes.
Eu acho simplesmente terrível o que certas organizações fazem, mantendo muitas pessoas em constante estado de angústia e pânico. Assim elas se tornam facilmente manipuláveis e exploráveis por essas organizações. E o mais provável é que os que promovem essas "profecias" nem acreditam nelas, com raras exceções.
Nessas imagens (no meu album no Orkut) se vê mais um dos muitos exemplos do que as diversas organizações religiosas estão fazendo.
Na verdade elas induzem os seus seguidores a um estado permanente de ansiedade. Quem é que pode levar a vida de forma construtiva tendo que estar sempre com essa verdadeira "espada de Dâmocles" pendurada por cima da cabeça?
Será que esse tipo de "propaganda" não poderia, e deveria, ser fiscalizada pelas autoridades? Será que em nome da liberdade de expressão deve ser permitido veicular informações falsas com o objetivo de induzir o pânico nas pessoas?
De maneira geral as religiões governam pelo medo. Duvidar é "pecado", não é permitido questionar. Os fiéis são mantidos numa camisa de força invisível, impedidas de se movimentar livremente. Tem que seguir cegamente as rígidas regras da organização, sob pena de ir para o "inferno" se duvidar.
As profecias de fim de mundo são o supra-sumo desse governar pelo medo. E não temos isso só nas religiões. Temos as previsões de choques de meteoros, tem o Calendário Maia, e tantas outras. Parece que certas pessoas tem prazer em torturar mentalmente as pessoas.
Existem previsões de fim de mundo desde a antiguidade. O mundo ia acabar no ano zero, depois teve várias outras datas, inclusive o ano 1000, o ano 2000, etc.
Agora estão falando no ano 2012 (Calendário Maia) e as várias organizações religiosas sempre dizem que não dá para saber a data certa, mas que vai ser "em breve".
O importante mesmo disso tudo, a conclusão a tirar, é:
Nenhuma dessas previsões deu certo!
Então porque devemos acreditar que a próxima dará?
Eu acho simplesmente terrível o que certas organizações fazem, mantendo muitas pessoas em constante estado de angústia e pânico. Assim elas se tornam facilmente manipuláveis e exploráveis por essas organizações. E o mais provável é que os que promovem essas "profecias" nem acreditam nelas, com raras exceções.
Nessas imagens (no meu album no Orkut) se vê mais um dos muitos exemplos do que as diversas organizações religiosas estão fazendo.
Na verdade elas induzem os seus seguidores a um estado permanente de ansiedade. Quem é que pode levar a vida de forma construtiva tendo que estar sempre com essa verdadeira "espada de Dâmocles" pendurada por cima da cabeça?
Será que esse tipo de "propaganda" não poderia, e deveria, ser fiscalizada pelas autoridades? Será que em nome da liberdade de expressão deve ser permitido veicular informações falsas com o objetivo de induzir o pânico nas pessoas?
De maneira geral as religiões governam pelo medo. Duvidar é "pecado", não é permitido questionar. Os fiéis são mantidos numa camisa de força invisível, impedidas de se movimentar livremente. Tem que seguir cegamente as rígidas regras da organização, sob pena de ir para o "inferno" se duvidar.
As profecias de fim de mundo são o supra-sumo desse governar pelo medo. E não temos isso só nas religiões. Temos as previsões de choques de meteoros, tem o Calendário Maia, e tantas outras. Parece que certas pessoas tem prazer em torturar mentalmente as pessoas.
Existem previsões de fim de mundo desde a antiguidade. O mundo ia acabar no ano zero, depois teve várias outras datas, inclusive o ano 1000, o ano 2000, etc.
Agora estão falando no ano 2012 (Calendário Maia) e as várias organizações religiosas sempre dizem que não dá para saber a data certa, mas que vai ser "em breve".
O importante mesmo disso tudo, a conclusão a tirar, é:
Nenhuma dessas previsões deu certo!
Então porque devemos acreditar que a próxima dará?
Saturday, April 24, 2010
Hoje faz 40 anos que cheguei no Brasil.
No dia 24 de abril de 1970, desembarcamos no porto de Santos. Estávamos viajando há umas três semanas de navio, minha mãe, meu irmão mais velho, eu e minhas três irmãs. Nossas idades - 16/13(eu)/10/7/4.E também tinha o nosso cachorro, Båtsman, um grande labrador preto.
Tudo estava planejado para que a firma do meu pai tivesse enviado alguém para nos receber na alfândega. Mas não tinha ninguém lá.
Não falávamos uma palavra de português e não tínhamos dinheiro. Eu imagino como a minha mãe se sentiu, até o fim da vida ela falava sobre aquilo. Foi um choque.
Mas por sorte ela encontrou um funcionário da alfândega qe falava inglês. Ele foi muito gentil, e nos encaminhou para um hotel em Santos, cujo dono era inglês. Se chamava Sir John, e nos recebeu muito gentilmente, na maior confiança.
Do hotel a minha mãe conseguiu telefonar para a firma do meu pai. Quando a secretária atendeu, e minha mãe explicou quem era, ela disse (em inglês): "Mas nós pensávamos que vocês iam chegar amanhã!", ao que minha mãe respondeu, "Sinto muito, mas chegamos hoje."
Aí tudo se resolveu, claro. No dia seguinte foram lá para nos buscar, nos levaram a São Paulo e de lá fomos a Porto Alegre.
Passamos a morar em Guaíba, que é onde fica a fábrica de celulose onde meu pai trabalhava. Ficamos lá durante três anos, e foram os melhores anos da minha adolescência. Foi inclusive onde conheci o homem com quem sou casada até hoje.
Tudo estava planejado para que a firma do meu pai tivesse enviado alguém para nos receber na alfândega. Mas não tinha ninguém lá.
Não falávamos uma palavra de português e não tínhamos dinheiro. Eu imagino como a minha mãe se sentiu, até o fim da vida ela falava sobre aquilo. Foi um choque.
Mas por sorte ela encontrou um funcionário da alfândega qe falava inglês. Ele foi muito gentil, e nos encaminhou para um hotel em Santos, cujo dono era inglês. Se chamava Sir John, e nos recebeu muito gentilmente, na maior confiança.
Do hotel a minha mãe conseguiu telefonar para a firma do meu pai. Quando a secretária atendeu, e minha mãe explicou quem era, ela disse (em inglês): "Mas nós pensávamos que vocês iam chegar amanhã!", ao que minha mãe respondeu, "Sinto muito, mas chegamos hoje."
Aí tudo se resolveu, claro. No dia seguinte foram lá para nos buscar, nos levaram a São Paulo e de lá fomos a Porto Alegre.
Passamos a morar em Guaíba, que é onde fica a fábrica de celulose onde meu pai trabalhava. Ficamos lá durante três anos, e foram os melhores anos da minha adolescência. Foi inclusive onde conheci o homem com quem sou casada até hoje.
Fiéis abandonam Igreja Católica devido a escândalos na Alemanha
http://tinyurl.com/367dff5
O escândalo dos abusos sexuais e dos maus tratos a menores que atinge a Igreja Católica na Alemanha está causando um abandono em massa de fiéis, que deixam de doar dinheiro para custeio das confissões religiosas.
O número de baixas é qualificado de "dramático", especialmente no sul da Alemanha, sobretudo no católico estado da Baviera, segundo pesquisa publica neste sábado pelo jornal Frankfurter Rundschau, que consultou bispados e registros responsáveis pela apuração dos fiéis.
No bispado de Bamberg, no qual até pouco tempo as baixas não superavam 200 ou 300 fiéis ao mês, o número chegou em março a 1,4 mil, enquanto em Würzburg passou de 400 para mais de 1,2 mil.
Em Regensburg, onde surgiu um escândalo por maus tratos às crianças do Coro Catedralicio dirigido pelo irmão do papa, Georg Ratzinger, as baixas se multiplicaram por cinco.
Em Augsburgo, cujo bispo, Walter Mixa, renunciou esta semana após reconhecer ter maltratado crianças de um orfanato quando era pároco de uma localidade da Baviera, as baixas desde o início do ano já somam mais de 4,3 mil fiéis.
Quedas maciças também foram contabilizadas nos bispados de Rottenburg-Stuttgart, Osnabrück e Colônia, enquanto no de Berlim triplicou o número de pessoas que abandonaram oficialmente a igreja.
A ministra alemã de Justiça, Sabine Leutheusser-Schnarrenberger, deseja aumentar os prazos de prescrição para que vítimas de abusos sexuais quando eram menores de idade possam dispor de mais tempo para denunciar os autores. "Estou aberta a um aumento dos prazos", declara a ministra na edição deste sábado do jornal Süddeutsche Zeitung. Atualmente, os prazos vencem três anos depois que as vítimas chegaram aos 21 anos de idade.
Enquanto isso, o governo alemão ativou na sexta-feira seu plano de apoio às vítimas de pedofilia, diante do alarme social pelos escândalos de abusos tanto em instituições eclesiásticas como em centros laicos. O governo busca soluções para casos de complexa perseguição judicial que frequentemente prescreveram como delito. "Muitos desses delitos prescreveram, mas a responsabilidade de auxiliar suas vítimas não prescreve", declarou a ministra da Família, Kristina Schröder, ao inaugurar as sessões da mesa de trabalho criada para o esclarecimento das centenas de casos de pedofilia revelados nos últimos meses em todo o país.
A mesa de trabalho agrupa três ministras de Angela Merkel - além de Katrine, a ministra de Justiça, Sabine Leutheusser-Scharrenberger e a de Educação, Annette Schavan - assim como a ex-ministra Christine Bergmann, titular da Família no governo de Gerhard Schröder e agora encarregada especial do governo para essa incumbência.
Completam o grupo 61 representantes das Igrejas Católica e Evangélica, médicos, docentes e juristas, com o objetivo de abordar uma problemática que deixou muito abalada a credibilidade das instituições religiosas, especialmente as católicas. As sessões de trabalho começarão em maio com a intenção de apresentar medidas preventivas e também ajudas concretas às vítimas antes do fim do ano.
[Espero que isso aconteça no mundo inteiro]
O escândalo dos abusos sexuais e dos maus tratos a menores que atinge a Igreja Católica na Alemanha está causando um abandono em massa de fiéis, que deixam de doar dinheiro para custeio das confissões religiosas.
O número de baixas é qualificado de "dramático", especialmente no sul da Alemanha, sobretudo no católico estado da Baviera, segundo pesquisa publica neste sábado pelo jornal Frankfurter Rundschau, que consultou bispados e registros responsáveis pela apuração dos fiéis.
No bispado de Bamberg, no qual até pouco tempo as baixas não superavam 200 ou 300 fiéis ao mês, o número chegou em março a 1,4 mil, enquanto em Würzburg passou de 400 para mais de 1,2 mil.
Em Regensburg, onde surgiu um escândalo por maus tratos às crianças do Coro Catedralicio dirigido pelo irmão do papa, Georg Ratzinger, as baixas se multiplicaram por cinco.
Em Augsburgo, cujo bispo, Walter Mixa, renunciou esta semana após reconhecer ter maltratado crianças de um orfanato quando era pároco de uma localidade da Baviera, as baixas desde o início do ano já somam mais de 4,3 mil fiéis.
Quedas maciças também foram contabilizadas nos bispados de Rottenburg-Stuttgart, Osnabrück e Colônia, enquanto no de Berlim triplicou o número de pessoas que abandonaram oficialmente a igreja.
A ministra alemã de Justiça, Sabine Leutheusser-Schnarrenberger, deseja aumentar os prazos de prescrição para que vítimas de abusos sexuais quando eram menores de idade possam dispor de mais tempo para denunciar os autores. "Estou aberta a um aumento dos prazos", declara a ministra na edição deste sábado do jornal Süddeutsche Zeitung. Atualmente, os prazos vencem três anos depois que as vítimas chegaram aos 21 anos de idade.
Enquanto isso, o governo alemão ativou na sexta-feira seu plano de apoio às vítimas de pedofilia, diante do alarme social pelos escândalos de abusos tanto em instituições eclesiásticas como em centros laicos. O governo busca soluções para casos de complexa perseguição judicial que frequentemente prescreveram como delito. "Muitos desses delitos prescreveram, mas a responsabilidade de auxiliar suas vítimas não prescreve", declarou a ministra da Família, Kristina Schröder, ao inaugurar as sessões da mesa de trabalho criada para o esclarecimento das centenas de casos de pedofilia revelados nos últimos meses em todo o país.
A mesa de trabalho agrupa três ministras de Angela Merkel - além de Katrine, a ministra de Justiça, Sabine Leutheusser-Scharrenberger e a de Educação, Annette Schavan - assim como a ex-ministra Christine Bergmann, titular da Família no governo de Gerhard Schröder e agora encarregada especial do governo para essa incumbência.
Completam o grupo 61 representantes das Igrejas Católica e Evangélica, médicos, docentes e juristas, com o objetivo de abordar uma problemática que deixou muito abalada a credibilidade das instituições religiosas, especialmente as católicas. As sessões de trabalho começarão em maio com a intenção de apresentar medidas preventivas e também ajudas concretas às vítimas antes do fim do ano.
[Espero que isso aconteça no mundo inteiro]
Monday, April 19, 2010
Vaticano instruiu o acobertamento de escândalos
No Blog INDEX - http://index.opsblog.org/04/2010/vaticano-acobertamento-escandalos/
Vaticano instruiu o acobertamento de escândalos
Apr 19th, 2010
by daniel.
A notícia completa no site do Guardian. Por lá também, a íntegra do documento em PDF — a coisa abjeta chama “Crimine solicitationies“. É cada vez menos exagerado chamar aquilo lá de organização criminosa.
Ah sim, dizem que o papa chorou, vocês viram? Essa etapa era dispensável, mas vá lá. Agora só falta os acusados de estuprado e os que acobertaram seus atos responderem a perguntas sob juramento e, onde for o caso, serem encarcerados.
Vaticano instruiu o acobertamento de escândalos
Apr 19th, 2010
by daniel.
O Vaticano instruiu bispos católicos de todo o mundo para acobertarem casos de abuso sexual, sob risco de serem expulsos da Igreja. The Observer obteve dos arquivos secretos do Vaticano um documento confidencial de 40 anos atrás, que advogados estão chamando de um “projeto para o engano e o encobrimento”. Um advogado britânico que trabalha para vítimas de abuso da Igreja descreveu o documento como “explosivo”.
A notícia completa no site do Guardian. Por lá também, a íntegra do documento em PDF — a coisa abjeta chama “Crimine solicitationies“. É cada vez menos exagerado chamar aquilo lá de organização criminosa.
Ah sim, dizem que o papa chorou, vocês viram? Essa etapa era dispensável, mas vá lá. Agora só falta os acusados de estuprado e os que acobertaram seus atos responderem a perguntas sob juramento e, onde for o caso, serem encarcerados.
Saturday, April 10, 2010
Ateismo é só uma negação?
A princípio, para fins de simplificação, de fato o ateísmo é só a não-crença em divindades. Mas será que acaba sendo "só" isso?
Eu penso que ateísmo é um ponto de transformação, é uma mudança radical de foco. É como se parássemos de correr atrás da miragem lá longe no deserto (que quando se chega perto se percebe que não tem nada lá) e começássemos a prestar atenção naquilo que tem imediatamente ao nosso redor, com boas possiblidades de encontrar algo que realmente possa nos fornecer um meio de sobreviver.
No momento em que deixamos de acreditar em quaisquer deuses, na maioria das vezes também deixamos de crer em fenômenos sobrenaturais, alma e vida pós-morte. Eliminando esses conceitos da nossa mente, o foco das nossas vidas acaba mudando radicalmente. Se não vamos ter uma "segunda chance" com as pessoas que amamos, só nos resta prestar atenção nelas agora, conviver com elas e tratá-las bem enquanto estão aqui conosco.
Nós nos tornamos humanistas.
Se não existem fenômenos sobrenaturais, não tem porque ficar esperando por alguma "intervenção divina", temos que agir e tomar decisões por nós mesmos. Se não existe uma "alma", a idéia do "pecado" também perde o sentido, e o que vale são as consequências concretas dos nossos atos.
Nós nos tornamos práticos.
Passamos a entender que temos que agir aqui e agora, e que o conhecimento é fundamental para podermos agir com mais eficácia. Estudar e aprender mais sobre o mundo ao nosso redor se torna cada vez mais importante e também desejamos compartilhar esse conhecimento com outras pessoas.
Analisamos evidências e tiramos conclusões em vez de acreditar.
Passamos a dar mais importância à compaixão e à empatia para com os nossos semelhantes, em vez de nos preocupar com algumas regras ditadas num livro.
Mais humanismo.
Eu já disse em outras ocasiões, e vou dizer de novo: ateísmo não é algo que decidimos adotar, é uma conclusão a que se chega depois de analisar os fatos e comparar com o que nos disseram. Ninguém convence ninguém a se tornar ateu, é um processo interno particular de cada um. Pode parecer algo simples e pequeno mas, como tentei demonstrar acima, tem consequências dramáticas na maneira como passamos a ver a vida.
Eu penso que ateísmo é um ponto de transformação, é uma mudança radical de foco. É como se parássemos de correr atrás da miragem lá longe no deserto (que quando se chega perto se percebe que não tem nada lá) e começássemos a prestar atenção naquilo que tem imediatamente ao nosso redor, com boas possiblidades de encontrar algo que realmente possa nos fornecer um meio de sobreviver.
No momento em que deixamos de acreditar em quaisquer deuses, na maioria das vezes também deixamos de crer em fenômenos sobrenaturais, alma e vida pós-morte. Eliminando esses conceitos da nossa mente, o foco das nossas vidas acaba mudando radicalmente. Se não vamos ter uma "segunda chance" com as pessoas que amamos, só nos resta prestar atenção nelas agora, conviver com elas e tratá-las bem enquanto estão aqui conosco.
Nós nos tornamos humanistas.
Se não existem fenômenos sobrenaturais, não tem porque ficar esperando por alguma "intervenção divina", temos que agir e tomar decisões por nós mesmos. Se não existe uma "alma", a idéia do "pecado" também perde o sentido, e o que vale são as consequências concretas dos nossos atos.
Nós nos tornamos práticos.
Passamos a entender que temos que agir aqui e agora, e que o conhecimento é fundamental para podermos agir com mais eficácia. Estudar e aprender mais sobre o mundo ao nosso redor se torna cada vez mais importante e também desejamos compartilhar esse conhecimento com outras pessoas.
Analisamos evidências e tiramos conclusões em vez de acreditar.
Passamos a dar mais importância à compaixão e à empatia para com os nossos semelhantes, em vez de nos preocupar com algumas regras ditadas num livro.
Mais humanismo.
Eu já disse em outras ocasiões, e vou dizer de novo: ateísmo não é algo que decidimos adotar, é uma conclusão a que se chega depois de analisar os fatos e comparar com o que nos disseram. Ninguém convence ninguém a se tornar ateu, é um processo interno particular de cada um. Pode parecer algo simples e pequeno mas, como tentei demonstrar acima, tem consequências dramáticas na maneira como passamos a ver a vida.
Sunday, March 21, 2010
A carta do Papa protege a ICAR, não suas vítimas
A carta do Papa sobre abuso infantil protege a igreja, não as vítimas
A carta do papa possui lições para a sociedade civil
O que ele escreve para os católicos sobre religião é um assunto entre eles. Mas a igreja católica também opera dentro da sociedade civil, age como um quasi-Estado nas Nações Unidas e envia embaixadores para Estados reais.
E a carta do papa inclui afirmações sobre a sociedade secular que são factualmente erradas.
Tendo lido toda a carta, o seguinte me parece claro:
1. A principal prioridade do papa é proteger a igreja, e não as vítimas
2. O papa erroneamente culpa o secularismo pelos estupros de crianças pelos padres
3. Os pedidos de desculpas do papa são incompletos e seus apelos são em causa própria
4. As "iniciativas concretas" do papa são uma distração, não uma solução
5. O papa está se esquivando das responsabilidades da igreja para com a sociedade
1. A principal prioridade do papa é proteger a igreja, e não as vítimas
Em uma carta de aproximadamente 5 mil palavras, a expressão "abuso sexual" aparece apenas 3 vezes, e em lugar algum ela é usada como um verbo ativo descrevendo uma ação que os padres católicos fizeram às crianças. Ao invés disso, ela é descrita duas vezes abstratamente como "o problema do abuso sexual infantil", e uma vez passivamente como "as vítimas do abuso sexual infantil". Em contraste, a palavra "igreja" aparece mais de 50 vezes. Nada surpreendente o fato das palavras "estupro" e "encobrir" (o caso) não aparecerem nenhuma vez na carta.
Um dos três usos da expressão "abuso sexual" é: "Desde o momento em que a gravidade e extensão do problema do abuso sexual infantil nas instituições católicas começaram a ser compreendidos, a igreja tem trabalhado bastante em muitas partes do mundo com o intuito de chamar a atenção para o problema e remediá-lo." Esta afirmação é falsa. A igreja católica sabe há séculos que alguns padres têm estuprado crianças, e eles sabem há séculos que estuprar crianças é gravemente errado, tanto como pecado na religião deles como um crime na sociedade civil.
O papa nem mesmo reconhece (desculpar-se muito menos) a política da igreja católica de os bispos repetidamente encobrirem os caso de estupro de crianças por padres. Ao invés disso ele eufemisticamente se refere a "erros" por parte dos bispos quando responde as alegações, e nem sequer inclui o Vaticano ou ele mesmo como responsáveis por tais "erros". Ao usar este linguajar evasivo, ele está na verdade regredindo em relação a dezembro passado, quando bispos Irlandeses admitiram que o relatório Murphy indicava uma cultura generalizada na igreja de encobrir os casos de abuso sexual.
Em uma declaração emitida durante o encontro em Maynooth, em novembro de 2009, os bispos irlandeses disseram: "Nós estamos profundamente chocados com a escala e depravação dos abusos, como descritos no relatório. Estamos envergonhados pela extensão do encobrimento dos abusos na arquidiocese de Dublin e reconhecemos que isto indica um hábito que estava alastrado dentro da igreja. O ato de evitar escândalos, a preservação das reputações de indivíduos e da igreja teve prioridade sobre a segurança e saúde das crianças. Isto nunca deveria ter acontecido e não dever ser permitido que aconteça de novo. Nós humildemente pedimos por perdão."
Apesar desta explícita admissão em dezembro passado pelos bispos irlandeses, a carta pastoral do papa contém algumas dicas subliminares sobre o que preocupa ele mais sobre este assunto. Na Seção 1, o papa escreve: "Eu estou profundamente perturbado com a informação que veio à luz com respeito ao abuso de crianças...". Como seria mais forte esta sentença de abertura da carta se ele tivesse simplesmente dito: "Eu estou profundamente perturbado com o abuso de crianças...". Como teria sido mais impactante se ele tivesse usado o mesmo modo de falar que os bispos irlandeses usaram em dezembro.
Em vez disso, na Seção 2, o papa diz que: "Para se recuperar desta dolorosa ferida, a igreja na Irlanda deve primeiro reconhecer perante o Senhor e perante as pessoas os sérios pecados cometidos contra crianças indefesas. Tal reconhecimento, acompanhado pela sincera mágoa pelo dano causado a estas vítimas e suas famílias, deve conduzir a um esforço combinado para garantir que as crianças estejam protegidas de crimes similares no futuro."
À primeira vista, isto parece louvável. Mas leia novamente para ver as nuances. A razão pela qual pecados contra crianças devem ser reconhecidos é para permitir que a igreja (e não as vítimas) se recupere desta "dolorosa ferida". É apenas como um ponto subsequente que isto deve ser acompanhado de mágoa pelo dano causado às vítimas. Se você analisar o modo de falar no decorrer da carta, as mesmas prioridades são repetidas. A prioridade desta carta é revitalizar a igreja católica, e não buscar justiça ou buscar reparação para suas vítimas.
2. O papa erroneamente culpa o secularismo pelos estupros de crianças pelos padres
A Seção 3 é uma breve história estapafúrdia, da perspectiva do papa, do catolicismo irlandês e do impacto dos missionários católicos irlandeses na Europa e em outros continentes. Para uma visão geral, ele sugere que, por séculos, clérigos irlandeses "dedicaram suas vidas à Cristo, compartilhando a dádiva da fé com outros, e colocando está fé em ação em amar o 'servir a Deus' e o próximo."
Na seção 4, o papa diz que isto tudo mudou em décadas recentes, por causa de "novos e sérios desafios à fé surgindo da rápida transformação e secularização da sociedade irlandesa." Ele escreve que "o ritmo acelerado da mudança social" fez com que católicos irlandeses se confessassem e rezassem com menos frequência, e que padres irlandeses "avaliassem as realidades seculares sem referências suficientes às escrituras." Isto inclui "uma bem-intencionada mas equivocada tendência em evitar confrontos penais em situações canonicamente irregulares."
Isto, o papa escreve, é o "contexto geral" no qual "devemos tentar entender o perturbador problema do abuso sexual infantil, que contribuiu muito para o enfraquecimento da fé e a perda do respeito pela igreja e seus ensinamentos." Olhe de novo para as nuances deste linguajar. O papa está sugerindo que a secularização da sociedade é o contexto no qual devemos julgar padres estuprando crianças, o que consequentemente enfraquece a fé e o respeito pela igreja. Isto é baboseira egoísta. A realidade é quase exatamente o oposto.
Padres católicos estavam estuprando crianças, e bispos católicos e o Vaticano estavam encobrindo estes crimes muito antes da sociedade irlandesa se tornar mais secular. O que a secularização fez foi capacitar as vítimas destes crimes a falar sobre suas experiências, e mais importante, serem escutadas e acreditadas. E a secularização ajudou a revelar os métodos tradicionais usados pela hierarquia católica para encobrir estes crimes, como obrigar as crianças a jurarem segredo e transferir os criminosos para outras paróquias, dioceses ou países, onde eles poderiam estuprar mais crianças.
Esta alegação falsa sobre o secularismo é parte de um padrão da igreja católica de negação da responsabilidade por seus atos. No início deste mês, o exorcista oficial (!) do Vaticano culpou "Satã agindo no Vaticano" por padres estuprarem crianças. E em setembro do ano passado, o representante do Vaticano nas Nações Unidas argumentou que o abuso sexual infantil era comum entre judeus; que menos de 5% do clero católico eram estupradores; e que a maioria deles eram na verdade efebófilos e não pedófilos, porque eles se sentiam atraídos por garotos adolescentes. Este "rodeio" tem que parar. Está na hora da igreja católica parar de botar a culpa de seus crimes nos outros.
3. Os pedidos de desculpas do papa são incompletos e seus apelos são em causa própria
Na Seção 5, o papa diz que se encontrou com vítimas de abuso sexual, e está pronto para fazer isso de novo (?). Ele diz que já pediu aos bispos irlandeses para revelarem a verdade sobre o que aconteceu no passado, para prevenir que isto ocorra de novo e para trazer justiça e cura às vítimas destes crimes. Ele então introduz uma série de parágrafos direcionados diretamente às vítimas, seus abusadores, pais, crianças e jovens, padres e religiosos, bispos e todos os fieis da Irlanda. Nada disto serve como propósito para trazer justiça e cura para as vítimas destes crimes.
3(a) Vítimas e os padres que abusaram delas
Na Seção 6, o papa finalmente fala às vítimas de abuso e suas famílias. Ele pede desculpas pelo seu sofrimento, mas descreve os abusos na voz passiva: "Vocês sofreram... a injúria que vocês suportaram... Sua confiança foi traída... Sua dignidade foi violada..." Ele parece ser incapaz de alegar direta responsabilidade pelo que a igreja fez. Isto seria dito como: "Nós fizemos vocês sofrerem... nós traímos sua confiança...", etc. O papa então se afasta do mundo real, dizendo às vítimas que Jesus compreende a dor delas, pois ele também foi uma vítima de injustiça, mas que as feridas de Jesus romperam o poder do mal e as pessoas renasceram. Ele conclui dizendo que as vítimas podem encontrar a paz "se aproximando de Cristo e participando na vida de Sua igreja." Dois pontos surgem aqui: primeiro, o papa deveria ter se desculpado com as vítimas no começo da carta, e não no tópico número 6. E segundo, a sugestão de que elas podem encontrar paz participando na igreja que ainda está escondendo os crimes contra elas e contra outras crianças ao redor do mundo é profundamente ofensivo.
Na Seção 7, o papa fala aos padres e religiosos que abusaram de crianças. Ele diz que eles traíram a confiança depositada neles pelas crianças, e "devem responder por isso diante de Deus Todo Poderoso e diante de tribunais devidamente constituídos." Ele não especifica o que a ambígua frase "tribunais devidamente constituídos" significa. Ele diz a eles que eles fizeram grandes danos à igreja e à percepção pública do sacerdócio. Ele diz que Cristo pode perdoá-los pelo mais grave dos pecados, mas a "justiça de Deus" exige que eles não escondam nada sobre suas ações. Ele os incita a "abertamente reconhecer sua culpa, submeterem-se às exigências da justiça, mas não se desanimarem da misericórdia de Deus." Dado que a sentença anterior se refere à "justiça de Deus", é incerto se "submeterem-se às exigências da justiça" significa se entregar para a polícia ou não.
3(b) Outros padres e bispos irlandeses
Na Seção 10, o papa se dirige aos padres e religiosos irlandeses. Ele diz a eles: "Todos estamos sofrendo como resultado dos pecados de nossos confrades que traíram uma confiança sagrada ou falharam em lidar justamente e responsavelmente com as alegações de abuso." Notavelmente, o papa não inclui ele mesmo entre aqueles que "falharam em lidar justamente e responsavelmente com as alegações de abuso.". Esta é talvez a mais significativa frase da carta, com um ponto crucial oculto indiretamente na construção de um ponto diferente. Porque, até que o papa aceite que ele tem a responsabilidade definitiva pelo encobrimento destes crimes, tanto como papa como em seu antigo cargo de cardeal e bispo, ele será incapaz de falar sobre esse assunto na forma que deve ser falado.
Na Seção 11, o papa final se volta aos seus "bispos irmãos" na Irlanda. Esta devia ser a Seção 2, depois do pedido de desculpas às vítimas, que deveria ter sido a Seção 1. Nesta seção o papa escreve que alguns bispos "falharam, algumas vezes gravemente", em aplicar a lei canônica (presumivelmente a lei canônica) ao crime de abuso à criança. Ele acrescenta que: "Eu reconheço que como foi difícil compreender a extensão e a complexidade do problema, obter informação confiável e tomar decisões corretas à luz de conselhos conflitantes de especialistas." Isto é completamente sem sentido. O "problema" não era de forma alguma complexo. Se você está ciente que um homem está estuprando crianças com frequência, e você tem uma bússola moral minimamente funcional, você sabe que esse é um crime sério que deve ser comunicado à polícia.
O papa então diz aos bispos irlandeses: "Além de cumprir em sua totalidade as normas da lei canônica nos casos de abuso infantil, continuem a cooperar com as autoridades civis em suas áreas de competência." Podemos notar aqui a ordem de prioridade: lei canônica primeiro, autoridades civis em segundo, e as autoridades civis ainda são qualificadas com a frase condescendente "em suas áreas de competência." A priorização da lei canônica aparece novamente na próxima sentença: "bispos devem assegurar que as leis de segurança às crianças sejam inteiramente e imparcialmente aplicadas 'em conformidade com a lei canônica'." Não há referência paralela para "em conformidade com a lei civil." O papa então pede por "ações decisivas, cumpridas com completa honestidade e transparência", mas o propósito estabelecido destas ações decisivas não é para trazer justiça e/ou reparação, mas para restaurar a reputação da igreja.
O papa não repete aos bispos as coisas que ele disse aos padres, cujos crimes foram acobertados pelos bispos. Ele não diz aos bispos que eles traíram a confiança que lhes foi depositada pelas crianças, e que "devem responder por isso perante Deus Todo Poderoso e perante tribunais adequadamente constituídos." Ele não diz aos bispos que a "Justiça de Deus" exige que eles não escondam nada de seus atos. Ele não diz aos bispos para "abertamente reconhecerem sua culpa e submeterem-se às exigências da justiça." Isto é porque o papa vê o "problema de abuso sexual infantil" como sendo causado por padres individuais, e ele claramente não aceita as descobertas de investigações independentes que a igreja, num nível institucional acobertou esses crimes horrendos.
3(c) Pais, crianças e fiéis
Nas seções 8 e 9, o papa se dirige aos pais e aos jovens. Ele diz que os pais são os principais responsáveis por criar e educar seus filhos em autênticos valores morais, e inspirá-los com a verdade da fé católica. Ele diz que pais deviam fazer isto enquanto a igreja "continua a implementar as medidas adotados nos últimos anos para proteger os jovens nas paróquias e nos ambientes escolares." E ele pede às crianças e jovens para buscarem uma relação pessoal com Jesus dentro da igreja, porque Jesus nunca irá traí-los. Ele conclui pedindo aos jovens para serem discípulos fiéis na reconstrução e renovação da igreja.
Nas seções 12 e 13 o papa se dirige aos fiéis católicos na Irlanda. De novo ele ataca nossa "sociedade cada vez mais secularizada, aonde até nós cristãos frequentemente temos dificuldades para falar sobre as dimensões transcendentes da nossa existência." Isto não é verdade. E o papa deve saber disso. Uma sociedade secular não impede as pessoas de falarem sobre quaisquer crenças transcendentes que elas tenham. Ela somente previne que tais crenças se tornem a base na qual a política civil é formulada. O papa então escreve que mesmo que "medidas para lidar justamente com crimes individuais são essenciais, sozinhas elas não são suficientes.", e por isso devem ser aumentadas com uma nova visão baseada em seguir os mandamentos das escrituras. O papa conclui dizendo que ele está rezando solidariamente por todos seus irmãos e irmãs em Cristo.
4. As "iniciativas concretas" do papa são uma distração, não uma solução
Na seção 14, de longe a mais comprida, o papa propõe o que ele chama de "algumas iniciativas concretas para remediar a situação." Essas iniciativas vêm a ser: pedir a todos os católicos irlandeses para rezarem e irem à confissão com mais frequência em um período de um ano; fazer uma visitação apostólica a algumas dioceses e seminários na Irlanda; criar uma Missão para bispos e padres irlandeses através da intercessão de um padre francês do século 19 que pregou total obediência à hierarquia e que se engajou a flagelação corporal; e escrever uma nova prece para a igreja da Irlanda. Esta é a soma total de todas as "iniciativas concretas" do papa.
4(a) Mais oração e mais confissão
A primeira “iniciativa concreta” do Papa é pedir para que todos Católicos irlandeses, pelo período de um ano, entre agora e a Páscoa de 2011, dediquem suas penitências de sexta-feira a uma “expansão da misericórdia de Deus e dos dons e força do Espírito Santo” sobre a igreja da Irlanda. Ele pede para os Católicos irlandeses jejuarem, rezarem, lerem a escritura e façam obras de misericórdia para esse propósito específico; irem à Confissão mais frequentemente; e venerarem a Eucaristia Santa fora da Missa. O Papa diz que, através dessa intensa oração, todos os Católicos irlandeses “podem trazer reparação pelos pecados de abuso que fizeram tanto mal”.
Vamos examinar cada aspecto dessa proposta. Pede-se a todos os Católicos irlandeses que rezem com mais frequência e intensidade, não pelas crianças que foram estupradas por padres Católicos, mas por um renascimento da igreja Católica na Irlanda. Pede-se que ofereçam obras de misericórdia, não pelo propósito de ser misericordioso, mas novamente pelo renascimento da igreja Católica. O Papa diz que isso, somado a mais Confissão e mais adoração da Eucaristia, pode “trazer reparação pelos pecados de abuso”. Mas por que os Católicos irlandeses devem ser responsáveis por trazer reparação para padres estuprando crianças e bispos acobertando esses estupros?
Essa não é de fato uma iniciativa concreta, mas um apelo abstrato a todos Católicos irlandeses para dividir a culpa pelos crimes dos padres e os acobertamentos dos bispos. Estudos científicos mostraram que orações não têm impacto no mundo natural. As orações propostas pelo Papa têm um horário arbitrário de “um período de um ano”, o qual coincidentemente combina com sua arbitrária oferta de um ano de livres indulgências plenárias a católicos que visitaram Lourdes em 2009. E o foco em adorar a Santa Eucaristia fora da missa ressalta o mais supersticioso aspecto do ensino Católico.
4(b) Uma visitação apostólica e uma missão
A segunda “iniciativa concreta” do Papa é que os oficiais do Vaticano visitem certos seminários, dioceses e instituições religiosas na Irlanda. O propósito estabelecido não é trazer reparação às crianças estupradas por padres, mas sim “assistir a igreja local em seu caminho à renovação”. A terceira “iniciativa concreta” do Papa é que todos os bispos, padres e religiosos Irlandeses devem atender a uma Missão nacional na qual podem reaprender suas vocações e recentes ensinamentos pontífices. Aqui o Papa sugere que os padres e bispos irlandeses sigam o exemplo de São John Vianney, e diz que a Missão proposta deve operar através da intercessão de Vianney.
E quem é esse santo modelo cujo exemplo o Papa sugere aos padres e bispos irlandeses? Uma carta circular do Papa João XXIII diz que Vianney foi “excelente na virtude da obediência... estamos oferecendo aos clérigos essa total obediência como um modelo... a eficiência de qualquer apostolado deve-se à constante e fiel obediência na hierarquia de sua sólida fundação”. A mesma carta diz que Vianney foi “excelente de uma maneira única na flagelação de seu corpo... isso o levou à quase completa abstinência de comida e de sono [e] a cumprir os mais severos tipos de penitências... ele levou seu corpo à submissão através de flagelação voluntária”. Esse tipo de fundamentalismo é realmente a fundação sob a qual revitalizar a igreja Católica hoje?
O Papa conclui sua carta com uma oração pela igreja na Irlanda. Ele quer que os Católicos irlandeses façam uso dessa oração em suas famílias, paróquias e comunidades. A oração pede a Deus para renovar os Católicos irlandeses com fé, esperança e caridade. Ela pede a Jesus para ajudar a igreja Católica na Irlanda a educar jovens no caminho da verdade e bondade. Pede ao Espírito Santo para inspirar uma nova primavera de santidade e fervor apostólico na Irlanda. Ela pede que a mágoa e as lágrimas dos Católicos irlandeses, enquanto tentam corrigir erros do passado, tragam graça, que irá aprofundar a fé católica na Irlanda. E termina confiando ao Deus Trino “nós, nossas crianças, e as necessidades da igreja na Irlanda”. Em nenhum lugar nessa oração as palavras “vítima”, “abuso sexual”, “estupro”, “crime”, “encobrimento”, ou “desculpas” aparecem. Não surpreendentemente, em sintonia o tom de toda a carta, a oração é concluída enfocando as “necessidades da igreja”.
5. O papa está se esquivando das responsabilidades da igreja para com a sociedade
Tendo lido toda a carta, o seguinte me parece claro:
1. A principal prioridade do papa é proteger a igreja, e não as vítimas
2. O papa erroneamente culpa o secularismo pelos estupros de crianças pelos padres
3. Os pedidos de desculpas do papa são incompletos e seus apelos são em causa própria
4. As "iniciativas concretas" do papa são uma distração, não uma solução
5. O papa está se esquivando das responsabilidades da igreja para com a sociedade
Todas as iniciativas propostas pelo Papa são uma distração dos tipos de iniciativa que poderiam realmente fazer diferença. Estas poderiam incluir: reconhecer voluntariamente que a igreja está sujeita às mesmas leis civis democráticas do que todos nós; aceitar abertamente os resultados das várias investigações Irlandesas; reconhecer voluntariamente que a igreja Católica, a um nível institucional, encobriu crimes de padres contra crianças; voluntariamente tornar públicos todos os arquivos da igreja que as vítimas desejarem sobre esses crimes e sobre o acobertamento desses crimes; vender voluntariamente propriedades da igreja para voluntariamente recompensar vítimas; voluntariamente denunciar à polícia todos os padres que cometeram crimes e todos os bispos que encobriram esses crimes, e voluntariamente declarar-se culpada por quaisquer crimes cometidos.
O Papa conclui sua carta com uma oração, mas sua igreja continua a alternar entre ser uma religião ou um Estado, dependendo do que for mais conveniente ao momento. O mecanismo para isso é seu quasi-Estado na cidade do Vaticano, que não possui nenhum dos atributos de um Estado, como cidadãos, território e economia, entretanto envia embaixadores a Estados reais e é tratado quase como um Estado real pelas Nações Unidas. O que a igreja Católica faz como uma religião é da sua própria conta. Mas ela ainda está claramente em profunda negação do impacto de seu comportamento na sociedade mais ampla, então o resto de nós deveria reconhecer isso em nossas interações com essa igreja.
A DDP e polícia irlandesa devem tomar providências agora para garantir que bispos que encobriram crimes sérios contra crianças sejam levados à justiça. O Governo irlandês deve tomar providências para remover a influência da igreja Católica em nosso sistema de educação e de saúde. Particularmente, os direitos humanos de pais não-religiosos de terem um sistema de educação secular devem ser reivindicados em todas as regiões do país. O Governo deve rever sua relação com o quasi-Estado da igreja Católica na Cidade do Vaticano. O Governo deve procurar fazer com que as Nações Unidas tratem a igreja Católica como qualquer outra religião, dando ouvidos a ela como uma organização não-governamental, e não a tratando como um quasi-Estado.
Se a igreja Católica não vai encarar voluntariamente suas responsabilidades na sociedade cívica, as instituições do Estado devem certificar-se de que ela o faça. E nós, o povo, devemos pressionar nossos políticos a fazerem com que isso aconteça o mais rápido possível.
Tradução:
Humberto S. Berwanger: http://twitter.com/BertmanSB
Giulia Raquel Cantarutti: http://twitter.com/eugiu
Texto original de Michael Nugent
Link para o texto original
http://www.michaelnugent.com/2010/03/21/popes-letter-protects-church-not-its-victims/
A carta do papa possui lições para a sociedade civil
O que ele escreve para os católicos sobre religião é um assunto entre eles. Mas a igreja católica também opera dentro da sociedade civil, age como um quasi-Estado nas Nações Unidas e envia embaixadores para Estados reais.
E a carta do papa inclui afirmações sobre a sociedade secular que são factualmente erradas.
Tendo lido toda a carta, o seguinte me parece claro:
1. A principal prioridade do papa é proteger a igreja, e não as vítimas
2. O papa erroneamente culpa o secularismo pelos estupros de crianças pelos padres
3. Os pedidos de desculpas do papa são incompletos e seus apelos são em causa própria
4. As "iniciativas concretas" do papa são uma distração, não uma solução
5. O papa está se esquivando das responsabilidades da igreja para com a sociedade
1. A principal prioridade do papa é proteger a igreja, e não as vítimas
Em uma carta de aproximadamente 5 mil palavras, a expressão "abuso sexual" aparece apenas 3 vezes, e em lugar algum ela é usada como um verbo ativo descrevendo uma ação que os padres católicos fizeram às crianças. Ao invés disso, ela é descrita duas vezes abstratamente como "o problema do abuso sexual infantil", e uma vez passivamente como "as vítimas do abuso sexual infantil". Em contraste, a palavra "igreja" aparece mais de 50 vezes. Nada surpreendente o fato das palavras "estupro" e "encobrir" (o caso) não aparecerem nenhuma vez na carta.
Um dos três usos da expressão "abuso sexual" é: "Desde o momento em que a gravidade e extensão do problema do abuso sexual infantil nas instituições católicas começaram a ser compreendidos, a igreja tem trabalhado bastante em muitas partes do mundo com o intuito de chamar a atenção para o problema e remediá-lo." Esta afirmação é falsa. A igreja católica sabe há séculos que alguns padres têm estuprado crianças, e eles sabem há séculos que estuprar crianças é gravemente errado, tanto como pecado na religião deles como um crime na sociedade civil.
O papa nem mesmo reconhece (desculpar-se muito menos) a política da igreja católica de os bispos repetidamente encobrirem os caso de estupro de crianças por padres. Ao invés disso ele eufemisticamente se refere a "erros" por parte dos bispos quando responde as alegações, e nem sequer inclui o Vaticano ou ele mesmo como responsáveis por tais "erros". Ao usar este linguajar evasivo, ele está na verdade regredindo em relação a dezembro passado, quando bispos Irlandeses admitiram que o relatório Murphy indicava uma cultura generalizada na igreja de encobrir os casos de abuso sexual.
Em uma declaração emitida durante o encontro em Maynooth, em novembro de 2009, os bispos irlandeses disseram: "Nós estamos profundamente chocados com a escala e depravação dos abusos, como descritos no relatório. Estamos envergonhados pela extensão do encobrimento dos abusos na arquidiocese de Dublin e reconhecemos que isto indica um hábito que estava alastrado dentro da igreja. O ato de evitar escândalos, a preservação das reputações de indivíduos e da igreja teve prioridade sobre a segurança e saúde das crianças. Isto nunca deveria ter acontecido e não dever ser permitido que aconteça de novo. Nós humildemente pedimos por perdão."
Apesar desta explícita admissão em dezembro passado pelos bispos irlandeses, a carta pastoral do papa contém algumas dicas subliminares sobre o que preocupa ele mais sobre este assunto. Na Seção 1, o papa escreve: "Eu estou profundamente perturbado com a informação que veio à luz com respeito ao abuso de crianças...". Como seria mais forte esta sentença de abertura da carta se ele tivesse simplesmente dito: "Eu estou profundamente perturbado com o abuso de crianças...". Como teria sido mais impactante se ele tivesse usado o mesmo modo de falar que os bispos irlandeses usaram em dezembro.
Em vez disso, na Seção 2, o papa diz que: "Para se recuperar desta dolorosa ferida, a igreja na Irlanda deve primeiro reconhecer perante o Senhor e perante as pessoas os sérios pecados cometidos contra crianças indefesas. Tal reconhecimento, acompanhado pela sincera mágoa pelo dano causado a estas vítimas e suas famílias, deve conduzir a um esforço combinado para garantir que as crianças estejam protegidas de crimes similares no futuro."
À primeira vista, isto parece louvável. Mas leia novamente para ver as nuances. A razão pela qual pecados contra crianças devem ser reconhecidos é para permitir que a igreja (e não as vítimas) se recupere desta "dolorosa ferida". É apenas como um ponto subsequente que isto deve ser acompanhado de mágoa pelo dano causado às vítimas. Se você analisar o modo de falar no decorrer da carta, as mesmas prioridades são repetidas. A prioridade desta carta é revitalizar a igreja católica, e não buscar justiça ou buscar reparação para suas vítimas.
2. O papa erroneamente culpa o secularismo pelos estupros de crianças pelos padres
A Seção 3 é uma breve história estapafúrdia, da perspectiva do papa, do catolicismo irlandês e do impacto dos missionários católicos irlandeses na Europa e em outros continentes. Para uma visão geral, ele sugere que, por séculos, clérigos irlandeses "dedicaram suas vidas à Cristo, compartilhando a dádiva da fé com outros, e colocando está fé em ação em amar o 'servir a Deus' e o próximo."
Na seção 4, o papa diz que isto tudo mudou em décadas recentes, por causa de "novos e sérios desafios à fé surgindo da rápida transformação e secularização da sociedade irlandesa." Ele escreve que "o ritmo acelerado da mudança social" fez com que católicos irlandeses se confessassem e rezassem com menos frequência, e que padres irlandeses "avaliassem as realidades seculares sem referências suficientes às escrituras." Isto inclui "uma bem-intencionada mas equivocada tendência em evitar confrontos penais em situações canonicamente irregulares."
Isto, o papa escreve, é o "contexto geral" no qual "devemos tentar entender o perturbador problema do abuso sexual infantil, que contribuiu muito para o enfraquecimento da fé e a perda do respeito pela igreja e seus ensinamentos." Olhe de novo para as nuances deste linguajar. O papa está sugerindo que a secularização da sociedade é o contexto no qual devemos julgar padres estuprando crianças, o que consequentemente enfraquece a fé e o respeito pela igreja. Isto é baboseira egoísta. A realidade é quase exatamente o oposto.
Padres católicos estavam estuprando crianças, e bispos católicos e o Vaticano estavam encobrindo estes crimes muito antes da sociedade irlandesa se tornar mais secular. O que a secularização fez foi capacitar as vítimas destes crimes a falar sobre suas experiências, e mais importante, serem escutadas e acreditadas. E a secularização ajudou a revelar os métodos tradicionais usados pela hierarquia católica para encobrir estes crimes, como obrigar as crianças a jurarem segredo e transferir os criminosos para outras paróquias, dioceses ou países, onde eles poderiam estuprar mais crianças.
Esta alegação falsa sobre o secularismo é parte de um padrão da igreja católica de negação da responsabilidade por seus atos. No início deste mês, o exorcista oficial (!) do Vaticano culpou "Satã agindo no Vaticano" por padres estuprarem crianças. E em setembro do ano passado, o representante do Vaticano nas Nações Unidas argumentou que o abuso sexual infantil era comum entre judeus; que menos de 5% do clero católico eram estupradores; e que a maioria deles eram na verdade efebófilos e não pedófilos, porque eles se sentiam atraídos por garotos adolescentes. Este "rodeio" tem que parar. Está na hora da igreja católica parar de botar a culpa de seus crimes nos outros.
3. Os pedidos de desculpas do papa são incompletos e seus apelos são em causa própria
Na Seção 5, o papa diz que se encontrou com vítimas de abuso sexual, e está pronto para fazer isso de novo (?). Ele diz que já pediu aos bispos irlandeses para revelarem a verdade sobre o que aconteceu no passado, para prevenir que isto ocorra de novo e para trazer justiça e cura às vítimas destes crimes. Ele então introduz uma série de parágrafos direcionados diretamente às vítimas, seus abusadores, pais, crianças e jovens, padres e religiosos, bispos e todos os fieis da Irlanda. Nada disto serve como propósito para trazer justiça e cura para as vítimas destes crimes.
3(a) Vítimas e os padres que abusaram delas
Na Seção 6, o papa finalmente fala às vítimas de abuso e suas famílias. Ele pede desculpas pelo seu sofrimento, mas descreve os abusos na voz passiva: "Vocês sofreram... a injúria que vocês suportaram... Sua confiança foi traída... Sua dignidade foi violada..." Ele parece ser incapaz de alegar direta responsabilidade pelo que a igreja fez. Isto seria dito como: "Nós fizemos vocês sofrerem... nós traímos sua confiança...", etc. O papa então se afasta do mundo real, dizendo às vítimas que Jesus compreende a dor delas, pois ele também foi uma vítima de injustiça, mas que as feridas de Jesus romperam o poder do mal e as pessoas renasceram. Ele conclui dizendo que as vítimas podem encontrar a paz "se aproximando de Cristo e participando na vida de Sua igreja." Dois pontos surgem aqui: primeiro, o papa deveria ter se desculpado com as vítimas no começo da carta, e não no tópico número 6. E segundo, a sugestão de que elas podem encontrar paz participando na igreja que ainda está escondendo os crimes contra elas e contra outras crianças ao redor do mundo é profundamente ofensivo.
Na Seção 7, o papa fala aos padres e religiosos que abusaram de crianças. Ele diz que eles traíram a confiança depositada neles pelas crianças, e "devem responder por isso diante de Deus Todo Poderoso e diante de tribunais devidamente constituídos." Ele não especifica o que a ambígua frase "tribunais devidamente constituídos" significa. Ele diz a eles que eles fizeram grandes danos à igreja e à percepção pública do sacerdócio. Ele diz que Cristo pode perdoá-los pelo mais grave dos pecados, mas a "justiça de Deus" exige que eles não escondam nada sobre suas ações. Ele os incita a "abertamente reconhecer sua culpa, submeterem-se às exigências da justiça, mas não se desanimarem da misericórdia de Deus." Dado que a sentença anterior se refere à "justiça de Deus", é incerto se "submeterem-se às exigências da justiça" significa se entregar para a polícia ou não.
3(b) Outros padres e bispos irlandeses
Na Seção 10, o papa se dirige aos padres e religiosos irlandeses. Ele diz a eles: "Todos estamos sofrendo como resultado dos pecados de nossos confrades que traíram uma confiança sagrada ou falharam em lidar justamente e responsavelmente com as alegações de abuso." Notavelmente, o papa não inclui ele mesmo entre aqueles que "falharam em lidar justamente e responsavelmente com as alegações de abuso.". Esta é talvez a mais significativa frase da carta, com um ponto crucial oculto indiretamente na construção de um ponto diferente. Porque, até que o papa aceite que ele tem a responsabilidade definitiva pelo encobrimento destes crimes, tanto como papa como em seu antigo cargo de cardeal e bispo, ele será incapaz de falar sobre esse assunto na forma que deve ser falado.
Na Seção 11, o papa final se volta aos seus "bispos irmãos" na Irlanda. Esta devia ser a Seção 2, depois do pedido de desculpas às vítimas, que deveria ter sido a Seção 1. Nesta seção o papa escreve que alguns bispos "falharam, algumas vezes gravemente", em aplicar a lei canônica (presumivelmente a lei canônica) ao crime de abuso à criança. Ele acrescenta que: "Eu reconheço que como foi difícil compreender a extensão e a complexidade do problema, obter informação confiável e tomar decisões corretas à luz de conselhos conflitantes de especialistas." Isto é completamente sem sentido. O "problema" não era de forma alguma complexo. Se você está ciente que um homem está estuprando crianças com frequência, e você tem uma bússola moral minimamente funcional, você sabe que esse é um crime sério que deve ser comunicado à polícia.
O papa então diz aos bispos irlandeses: "Além de cumprir em sua totalidade as normas da lei canônica nos casos de abuso infantil, continuem a cooperar com as autoridades civis em suas áreas de competência." Podemos notar aqui a ordem de prioridade: lei canônica primeiro, autoridades civis em segundo, e as autoridades civis ainda são qualificadas com a frase condescendente "em suas áreas de competência." A priorização da lei canônica aparece novamente na próxima sentença: "bispos devem assegurar que as leis de segurança às crianças sejam inteiramente e imparcialmente aplicadas 'em conformidade com a lei canônica'." Não há referência paralela para "em conformidade com a lei civil." O papa então pede por "ações decisivas, cumpridas com completa honestidade e transparência", mas o propósito estabelecido destas ações decisivas não é para trazer justiça e/ou reparação, mas para restaurar a reputação da igreja.
O papa não repete aos bispos as coisas que ele disse aos padres, cujos crimes foram acobertados pelos bispos. Ele não diz aos bispos que eles traíram a confiança que lhes foi depositada pelas crianças, e que "devem responder por isso perante Deus Todo Poderoso e perante tribunais adequadamente constituídos." Ele não diz aos bispos que a "Justiça de Deus" exige que eles não escondam nada de seus atos. Ele não diz aos bispos para "abertamente reconhecerem sua culpa e submeterem-se às exigências da justiça." Isto é porque o papa vê o "problema de abuso sexual infantil" como sendo causado por padres individuais, e ele claramente não aceita as descobertas de investigações independentes que a igreja, num nível institucional acobertou esses crimes horrendos.
3(c) Pais, crianças e fiéis
Nas seções 8 e 9, o papa se dirige aos pais e aos jovens. Ele diz que os pais são os principais responsáveis por criar e educar seus filhos em autênticos valores morais, e inspirá-los com a verdade da fé católica. Ele diz que pais deviam fazer isto enquanto a igreja "continua a implementar as medidas adotados nos últimos anos para proteger os jovens nas paróquias e nos ambientes escolares." E ele pede às crianças e jovens para buscarem uma relação pessoal com Jesus dentro da igreja, porque Jesus nunca irá traí-los. Ele conclui pedindo aos jovens para serem discípulos fiéis na reconstrução e renovação da igreja.
Nas seções 12 e 13 o papa se dirige aos fiéis católicos na Irlanda. De novo ele ataca nossa "sociedade cada vez mais secularizada, aonde até nós cristãos frequentemente temos dificuldades para falar sobre as dimensões transcendentes da nossa existência." Isto não é verdade. E o papa deve saber disso. Uma sociedade secular não impede as pessoas de falarem sobre quaisquer crenças transcendentes que elas tenham. Ela somente previne que tais crenças se tornem a base na qual a política civil é formulada. O papa então escreve que mesmo que "medidas para lidar justamente com crimes individuais são essenciais, sozinhas elas não são suficientes.", e por isso devem ser aumentadas com uma nova visão baseada em seguir os mandamentos das escrituras. O papa conclui dizendo que ele está rezando solidariamente por todos seus irmãos e irmãs em Cristo.
4. As "iniciativas concretas" do papa são uma distração, não uma solução
Na seção 14, de longe a mais comprida, o papa propõe o que ele chama de "algumas iniciativas concretas para remediar a situação." Essas iniciativas vêm a ser: pedir a todos os católicos irlandeses para rezarem e irem à confissão com mais frequência em um período de um ano; fazer uma visitação apostólica a algumas dioceses e seminários na Irlanda; criar uma Missão para bispos e padres irlandeses através da intercessão de um padre francês do século 19 que pregou total obediência à hierarquia e que se engajou a flagelação corporal; e escrever uma nova prece para a igreja da Irlanda. Esta é a soma total de todas as "iniciativas concretas" do papa.
4(a) Mais oração e mais confissão
A primeira “iniciativa concreta” do Papa é pedir para que todos Católicos irlandeses, pelo período de um ano, entre agora e a Páscoa de 2011, dediquem suas penitências de sexta-feira a uma “expansão da misericórdia de Deus e dos dons e força do Espírito Santo” sobre a igreja da Irlanda. Ele pede para os Católicos irlandeses jejuarem, rezarem, lerem a escritura e façam obras de misericórdia para esse propósito específico; irem à Confissão mais frequentemente; e venerarem a Eucaristia Santa fora da Missa. O Papa diz que, através dessa intensa oração, todos os Católicos irlandeses “podem trazer reparação pelos pecados de abuso que fizeram tanto mal”.
Vamos examinar cada aspecto dessa proposta. Pede-se a todos os Católicos irlandeses que rezem com mais frequência e intensidade, não pelas crianças que foram estupradas por padres Católicos, mas por um renascimento da igreja Católica na Irlanda. Pede-se que ofereçam obras de misericórdia, não pelo propósito de ser misericordioso, mas novamente pelo renascimento da igreja Católica. O Papa diz que isso, somado a mais Confissão e mais adoração da Eucaristia, pode “trazer reparação pelos pecados de abuso”. Mas por que os Católicos irlandeses devem ser responsáveis por trazer reparação para padres estuprando crianças e bispos acobertando esses estupros?
Essa não é de fato uma iniciativa concreta, mas um apelo abstrato a todos Católicos irlandeses para dividir a culpa pelos crimes dos padres e os acobertamentos dos bispos. Estudos científicos mostraram que orações não têm impacto no mundo natural. As orações propostas pelo Papa têm um horário arbitrário de “um período de um ano”, o qual coincidentemente combina com sua arbitrária oferta de um ano de livres indulgências plenárias a católicos que visitaram Lourdes em 2009. E o foco em adorar a Santa Eucaristia fora da missa ressalta o mais supersticioso aspecto do ensino Católico.
4(b) Uma visitação apostólica e uma missão
A segunda “iniciativa concreta” do Papa é que os oficiais do Vaticano visitem certos seminários, dioceses e instituições religiosas na Irlanda. O propósito estabelecido não é trazer reparação às crianças estupradas por padres, mas sim “assistir a igreja local em seu caminho à renovação”. A terceira “iniciativa concreta” do Papa é que todos os bispos, padres e religiosos Irlandeses devem atender a uma Missão nacional na qual podem reaprender suas vocações e recentes ensinamentos pontífices. Aqui o Papa sugere que os padres e bispos irlandeses sigam o exemplo de São John Vianney, e diz que a Missão proposta deve operar através da intercessão de Vianney.
E quem é esse santo modelo cujo exemplo o Papa sugere aos padres e bispos irlandeses? Uma carta circular do Papa João XXIII diz que Vianney foi “excelente na virtude da obediência... estamos oferecendo aos clérigos essa total obediência como um modelo... a eficiência de qualquer apostolado deve-se à constante e fiel obediência na hierarquia de sua sólida fundação”. A mesma carta diz que Vianney foi “excelente de uma maneira única na flagelação de seu corpo... isso o levou à quase completa abstinência de comida e de sono [e] a cumprir os mais severos tipos de penitências... ele levou seu corpo à submissão através de flagelação voluntária”. Esse tipo de fundamentalismo é realmente a fundação sob a qual revitalizar a igreja Católica hoje?
O Papa conclui sua carta com uma oração pela igreja na Irlanda. Ele quer que os Católicos irlandeses façam uso dessa oração em suas famílias, paróquias e comunidades. A oração pede a Deus para renovar os Católicos irlandeses com fé, esperança e caridade. Ela pede a Jesus para ajudar a igreja Católica na Irlanda a educar jovens no caminho da verdade e bondade. Pede ao Espírito Santo para inspirar uma nova primavera de santidade e fervor apostólico na Irlanda. Ela pede que a mágoa e as lágrimas dos Católicos irlandeses, enquanto tentam corrigir erros do passado, tragam graça, que irá aprofundar a fé católica na Irlanda. E termina confiando ao Deus Trino “nós, nossas crianças, e as necessidades da igreja na Irlanda”. Em nenhum lugar nessa oração as palavras “vítima”, “abuso sexual”, “estupro”, “crime”, “encobrimento”, ou “desculpas” aparecem. Não surpreendentemente, em sintonia o tom de toda a carta, a oração é concluída enfocando as “necessidades da igreja”.
5. O papa está se esquivando das responsabilidades da igreja para com a sociedade
Tendo lido toda a carta, o seguinte me parece claro:
1. A principal prioridade do papa é proteger a igreja, e não as vítimas
2. O papa erroneamente culpa o secularismo pelos estupros de crianças pelos padres
3. Os pedidos de desculpas do papa são incompletos e seus apelos são em causa própria
4. As "iniciativas concretas" do papa são uma distração, não uma solução
5. O papa está se esquivando das responsabilidades da igreja para com a sociedade
Todas as iniciativas propostas pelo Papa são uma distração dos tipos de iniciativa que poderiam realmente fazer diferença. Estas poderiam incluir: reconhecer voluntariamente que a igreja está sujeita às mesmas leis civis democráticas do que todos nós; aceitar abertamente os resultados das várias investigações Irlandesas; reconhecer voluntariamente que a igreja Católica, a um nível institucional, encobriu crimes de padres contra crianças; voluntariamente tornar públicos todos os arquivos da igreja que as vítimas desejarem sobre esses crimes e sobre o acobertamento desses crimes; vender voluntariamente propriedades da igreja para voluntariamente recompensar vítimas; voluntariamente denunciar à polícia todos os padres que cometeram crimes e todos os bispos que encobriram esses crimes, e voluntariamente declarar-se culpada por quaisquer crimes cometidos.
O Papa conclui sua carta com uma oração, mas sua igreja continua a alternar entre ser uma religião ou um Estado, dependendo do que for mais conveniente ao momento. O mecanismo para isso é seu quasi-Estado na cidade do Vaticano, que não possui nenhum dos atributos de um Estado, como cidadãos, território e economia, entretanto envia embaixadores a Estados reais e é tratado quase como um Estado real pelas Nações Unidas. O que a igreja Católica faz como uma religião é da sua própria conta. Mas ela ainda está claramente em profunda negação do impacto de seu comportamento na sociedade mais ampla, então o resto de nós deveria reconhecer isso em nossas interações com essa igreja.
A DDP e polícia irlandesa devem tomar providências agora para garantir que bispos que encobriram crimes sérios contra crianças sejam levados à justiça. O Governo irlandês deve tomar providências para remover a influência da igreja Católica em nosso sistema de educação e de saúde. Particularmente, os direitos humanos de pais não-religiosos de terem um sistema de educação secular devem ser reivindicados em todas as regiões do país. O Governo deve rever sua relação com o quasi-Estado da igreja Católica na Cidade do Vaticano. O Governo deve procurar fazer com que as Nações Unidas tratem a igreja Católica como qualquer outra religião, dando ouvidos a ela como uma organização não-governamental, e não a tratando como um quasi-Estado.
Se a igreja Católica não vai encarar voluntariamente suas responsabilidades na sociedade cívica, as instituições do Estado devem certificar-se de que ela o faça. E nós, o povo, devemos pressionar nossos políticos a fazerem com que isso aconteça o mais rápido possível.
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