http://tinyurl.com/367dff5
O escândalo dos abusos sexuais e dos maus tratos a menores que atinge a Igreja Católica na Alemanha está causando um abandono em massa de fiéis, que deixam de doar dinheiro para custeio das confissões religiosas.
O número de baixas é qualificado de "dramático", especialmente no sul da Alemanha, sobretudo no católico estado da Baviera, segundo pesquisa publica neste sábado pelo jornal Frankfurter Rundschau, que consultou bispados e registros responsáveis pela apuração dos fiéis.
No bispado de Bamberg, no qual até pouco tempo as baixas não superavam 200 ou 300 fiéis ao mês, o número chegou em março a 1,4 mil, enquanto em Würzburg passou de 400 para mais de 1,2 mil.
Em Regensburg, onde surgiu um escândalo por maus tratos às crianças do Coro Catedralicio dirigido pelo irmão do papa, Georg Ratzinger, as baixas se multiplicaram por cinco.
Em Augsburgo, cujo bispo, Walter Mixa, renunciou esta semana após reconhecer ter maltratado crianças de um orfanato quando era pároco de uma localidade da Baviera, as baixas desde o início do ano já somam mais de 4,3 mil fiéis.
Quedas maciças também foram contabilizadas nos bispados de Rottenburg-Stuttgart, Osnabrück e Colônia, enquanto no de Berlim triplicou o número de pessoas que abandonaram oficialmente a igreja.
A ministra alemã de Justiça, Sabine Leutheusser-Schnarrenberger, deseja aumentar os prazos de prescrição para que vítimas de abusos sexuais quando eram menores de idade possam dispor de mais tempo para denunciar os autores. "Estou aberta a um aumento dos prazos", declara a ministra na edição deste sábado do jornal Süddeutsche Zeitung. Atualmente, os prazos vencem três anos depois que as vítimas chegaram aos 21 anos de idade.
Enquanto isso, o governo alemão ativou na sexta-feira seu plano de apoio às vítimas de pedofilia, diante do alarme social pelos escândalos de abusos tanto em instituições eclesiásticas como em centros laicos. O governo busca soluções para casos de complexa perseguição judicial que frequentemente prescreveram como delito. "Muitos desses delitos prescreveram, mas a responsabilidade de auxiliar suas vítimas não prescreve", declarou a ministra da Família, Kristina Schröder, ao inaugurar as sessões da mesa de trabalho criada para o esclarecimento das centenas de casos de pedofilia revelados nos últimos meses em todo o país.
A mesa de trabalho agrupa três ministras de Angela Merkel - além de Katrine, a ministra de Justiça, Sabine Leutheusser-Scharrenberger e a de Educação, Annette Schavan - assim como a ex-ministra Christine Bergmann, titular da Família no governo de Gerhard Schröder e agora encarregada especial do governo para essa incumbência.
Completam o grupo 61 representantes das Igrejas Católica e Evangélica, médicos, docentes e juristas, com o objetivo de abordar uma problemática que deixou muito abalada a credibilidade das instituições religiosas, especialmente as católicas. As sessões de trabalho começarão em maio com a intenção de apresentar medidas preventivas e também ajudas concretas às vítimas antes do fim do ano.
[Espero que isso aconteça no mundo inteiro]
Saturday, April 24, 2010
Monday, April 19, 2010
Vaticano instruiu o acobertamento de escândalos
No Blog INDEX - http://index.opsblog.org/04/2010/vaticano-acobertamento-escandalos/
Vaticano instruiu o acobertamento de escândalos
Apr 19th, 2010
by daniel.
A notícia completa no site do Guardian. Por lá também, a íntegra do documento em PDF — a coisa abjeta chama “Crimine solicitationies“. É cada vez menos exagerado chamar aquilo lá de organização criminosa.
Ah sim, dizem que o papa chorou, vocês viram? Essa etapa era dispensável, mas vá lá. Agora só falta os acusados de estuprado e os que acobertaram seus atos responderem a perguntas sob juramento e, onde for o caso, serem encarcerados.
Vaticano instruiu o acobertamento de escândalos
Apr 19th, 2010
by daniel.
O Vaticano instruiu bispos católicos de todo o mundo para acobertarem casos de abuso sexual, sob risco de serem expulsos da Igreja. The Observer obteve dos arquivos secretos do Vaticano um documento confidencial de 40 anos atrás, que advogados estão chamando de um “projeto para o engano e o encobrimento”. Um advogado britânico que trabalha para vítimas de abuso da Igreja descreveu o documento como “explosivo”.
A notícia completa no site do Guardian. Por lá também, a íntegra do documento em PDF — a coisa abjeta chama “Crimine solicitationies“. É cada vez menos exagerado chamar aquilo lá de organização criminosa.
Ah sim, dizem que o papa chorou, vocês viram? Essa etapa era dispensável, mas vá lá. Agora só falta os acusados de estuprado e os que acobertaram seus atos responderem a perguntas sob juramento e, onde for o caso, serem encarcerados.
Saturday, April 10, 2010
Ateismo é só uma negação?
A princípio, para fins de simplificação, de fato o ateísmo é só a não-crença em divindades. Mas será que acaba sendo "só" isso?
Eu penso que ateísmo é um ponto de transformação, é uma mudança radical de foco. É como se parássemos de correr atrás da miragem lá longe no deserto (que quando se chega perto se percebe que não tem nada lá) e começássemos a prestar atenção naquilo que tem imediatamente ao nosso redor, com boas possiblidades de encontrar algo que realmente possa nos fornecer um meio de sobreviver.
No momento em que deixamos de acreditar em quaisquer deuses, na maioria das vezes também deixamos de crer em fenômenos sobrenaturais, alma e vida pós-morte. Eliminando esses conceitos da nossa mente, o foco das nossas vidas acaba mudando radicalmente. Se não vamos ter uma "segunda chance" com as pessoas que amamos, só nos resta prestar atenção nelas agora, conviver com elas e tratá-las bem enquanto estão aqui conosco.
Nós nos tornamos humanistas.
Se não existem fenômenos sobrenaturais, não tem porque ficar esperando por alguma "intervenção divina", temos que agir e tomar decisões por nós mesmos. Se não existe uma "alma", a idéia do "pecado" também perde o sentido, e o que vale são as consequências concretas dos nossos atos.
Nós nos tornamos práticos.
Passamos a entender que temos que agir aqui e agora, e que o conhecimento é fundamental para podermos agir com mais eficácia. Estudar e aprender mais sobre o mundo ao nosso redor se torna cada vez mais importante e também desejamos compartilhar esse conhecimento com outras pessoas.
Analisamos evidências e tiramos conclusões em vez de acreditar.
Passamos a dar mais importância à compaixão e à empatia para com os nossos semelhantes, em vez de nos preocupar com algumas regras ditadas num livro.
Mais humanismo.
Eu já disse em outras ocasiões, e vou dizer de novo: ateísmo não é algo que decidimos adotar, é uma conclusão a que se chega depois de analisar os fatos e comparar com o que nos disseram. Ninguém convence ninguém a se tornar ateu, é um processo interno particular de cada um. Pode parecer algo simples e pequeno mas, como tentei demonstrar acima, tem consequências dramáticas na maneira como passamos a ver a vida.
Eu penso que ateísmo é um ponto de transformação, é uma mudança radical de foco. É como se parássemos de correr atrás da miragem lá longe no deserto (que quando se chega perto se percebe que não tem nada lá) e começássemos a prestar atenção naquilo que tem imediatamente ao nosso redor, com boas possiblidades de encontrar algo que realmente possa nos fornecer um meio de sobreviver.
No momento em que deixamos de acreditar em quaisquer deuses, na maioria das vezes também deixamos de crer em fenômenos sobrenaturais, alma e vida pós-morte. Eliminando esses conceitos da nossa mente, o foco das nossas vidas acaba mudando radicalmente. Se não vamos ter uma "segunda chance" com as pessoas que amamos, só nos resta prestar atenção nelas agora, conviver com elas e tratá-las bem enquanto estão aqui conosco.
Nós nos tornamos humanistas.
Se não existem fenômenos sobrenaturais, não tem porque ficar esperando por alguma "intervenção divina", temos que agir e tomar decisões por nós mesmos. Se não existe uma "alma", a idéia do "pecado" também perde o sentido, e o que vale são as consequências concretas dos nossos atos.
Nós nos tornamos práticos.
Passamos a entender que temos que agir aqui e agora, e que o conhecimento é fundamental para podermos agir com mais eficácia. Estudar e aprender mais sobre o mundo ao nosso redor se torna cada vez mais importante e também desejamos compartilhar esse conhecimento com outras pessoas.
Analisamos evidências e tiramos conclusões em vez de acreditar.
Passamos a dar mais importância à compaixão e à empatia para com os nossos semelhantes, em vez de nos preocupar com algumas regras ditadas num livro.
Mais humanismo.
Eu já disse em outras ocasiões, e vou dizer de novo: ateísmo não é algo que decidimos adotar, é uma conclusão a que se chega depois de analisar os fatos e comparar com o que nos disseram. Ninguém convence ninguém a se tornar ateu, é um processo interno particular de cada um. Pode parecer algo simples e pequeno mas, como tentei demonstrar acima, tem consequências dramáticas na maneira como passamos a ver a vida.
Sunday, March 21, 2010
A carta do Papa protege a ICAR, não suas vítimas
A carta do Papa sobre abuso infantil protege a igreja, não as vítimas
A carta do papa possui lições para a sociedade civil
O que ele escreve para os católicos sobre religião é um assunto entre eles. Mas a igreja católica também opera dentro da sociedade civil, age como um quasi-Estado nas Nações Unidas e envia embaixadores para Estados reais.
E a carta do papa inclui afirmações sobre a sociedade secular que são factualmente erradas.
Tendo lido toda a carta, o seguinte me parece claro:
1. A principal prioridade do papa é proteger a igreja, e não as vítimas
2. O papa erroneamente culpa o secularismo pelos estupros de crianças pelos padres
3. Os pedidos de desculpas do papa são incompletos e seus apelos são em causa própria
4. As "iniciativas concretas" do papa são uma distração, não uma solução
5. O papa está se esquivando das responsabilidades da igreja para com a sociedade
1. A principal prioridade do papa é proteger a igreja, e não as vítimas
Em uma carta de aproximadamente 5 mil palavras, a expressão "abuso sexual" aparece apenas 3 vezes, e em lugar algum ela é usada como um verbo ativo descrevendo uma ação que os padres católicos fizeram às crianças. Ao invés disso, ela é descrita duas vezes abstratamente como "o problema do abuso sexual infantil", e uma vez passivamente como "as vítimas do abuso sexual infantil". Em contraste, a palavra "igreja" aparece mais de 50 vezes. Nada surpreendente o fato das palavras "estupro" e "encobrir" (o caso) não aparecerem nenhuma vez na carta.
Um dos três usos da expressão "abuso sexual" é: "Desde o momento em que a gravidade e extensão do problema do abuso sexual infantil nas instituições católicas começaram a ser compreendidos, a igreja tem trabalhado bastante em muitas partes do mundo com o intuito de chamar a atenção para o problema e remediá-lo." Esta afirmação é falsa. A igreja católica sabe há séculos que alguns padres têm estuprado crianças, e eles sabem há séculos que estuprar crianças é gravemente errado, tanto como pecado na religião deles como um crime na sociedade civil.
O papa nem mesmo reconhece (desculpar-se muito menos) a política da igreja católica de os bispos repetidamente encobrirem os caso de estupro de crianças por padres. Ao invés disso ele eufemisticamente se refere a "erros" por parte dos bispos quando responde as alegações, e nem sequer inclui o Vaticano ou ele mesmo como responsáveis por tais "erros". Ao usar este linguajar evasivo, ele está na verdade regredindo em relação a dezembro passado, quando bispos Irlandeses admitiram que o relatório Murphy indicava uma cultura generalizada na igreja de encobrir os casos de abuso sexual.
Em uma declaração emitida durante o encontro em Maynooth, em novembro de 2009, os bispos irlandeses disseram: "Nós estamos profundamente chocados com a escala e depravação dos abusos, como descritos no relatório. Estamos envergonhados pela extensão do encobrimento dos abusos na arquidiocese de Dublin e reconhecemos que isto indica um hábito que estava alastrado dentro da igreja. O ato de evitar escândalos, a preservação das reputações de indivíduos e da igreja teve prioridade sobre a segurança e saúde das crianças. Isto nunca deveria ter acontecido e não dever ser permitido que aconteça de novo. Nós humildemente pedimos por perdão."
Apesar desta explícita admissão em dezembro passado pelos bispos irlandeses, a carta pastoral do papa contém algumas dicas subliminares sobre o que preocupa ele mais sobre este assunto. Na Seção 1, o papa escreve: "Eu estou profundamente perturbado com a informação que veio à luz com respeito ao abuso de crianças...". Como seria mais forte esta sentença de abertura da carta se ele tivesse simplesmente dito: "Eu estou profundamente perturbado com o abuso de crianças...". Como teria sido mais impactante se ele tivesse usado o mesmo modo de falar que os bispos irlandeses usaram em dezembro.
Em vez disso, na Seção 2, o papa diz que: "Para se recuperar desta dolorosa ferida, a igreja na Irlanda deve primeiro reconhecer perante o Senhor e perante as pessoas os sérios pecados cometidos contra crianças indefesas. Tal reconhecimento, acompanhado pela sincera mágoa pelo dano causado a estas vítimas e suas famílias, deve conduzir a um esforço combinado para garantir que as crianças estejam protegidas de crimes similares no futuro."
À primeira vista, isto parece louvável. Mas leia novamente para ver as nuances. A razão pela qual pecados contra crianças devem ser reconhecidos é para permitir que a igreja (e não as vítimas) se recupere desta "dolorosa ferida". É apenas como um ponto subsequente que isto deve ser acompanhado de mágoa pelo dano causado às vítimas. Se você analisar o modo de falar no decorrer da carta, as mesmas prioridades são repetidas. A prioridade desta carta é revitalizar a igreja católica, e não buscar justiça ou buscar reparação para suas vítimas.
2. O papa erroneamente culpa o secularismo pelos estupros de crianças pelos padres
A Seção 3 é uma breve história estapafúrdia, da perspectiva do papa, do catolicismo irlandês e do impacto dos missionários católicos irlandeses na Europa e em outros continentes. Para uma visão geral, ele sugere que, por séculos, clérigos irlandeses "dedicaram suas vidas à Cristo, compartilhando a dádiva da fé com outros, e colocando está fé em ação em amar o 'servir a Deus' e o próximo."
Na seção 4, o papa diz que isto tudo mudou em décadas recentes, por causa de "novos e sérios desafios à fé surgindo da rápida transformação e secularização da sociedade irlandesa." Ele escreve que "o ritmo acelerado da mudança social" fez com que católicos irlandeses se confessassem e rezassem com menos frequência, e que padres irlandeses "avaliassem as realidades seculares sem referências suficientes às escrituras." Isto inclui "uma bem-intencionada mas equivocada tendência em evitar confrontos penais em situações canonicamente irregulares."
Isto, o papa escreve, é o "contexto geral" no qual "devemos tentar entender o perturbador problema do abuso sexual infantil, que contribuiu muito para o enfraquecimento da fé e a perda do respeito pela igreja e seus ensinamentos." Olhe de novo para as nuances deste linguajar. O papa está sugerindo que a secularização da sociedade é o contexto no qual devemos julgar padres estuprando crianças, o que consequentemente enfraquece a fé e o respeito pela igreja. Isto é baboseira egoísta. A realidade é quase exatamente o oposto.
Padres católicos estavam estuprando crianças, e bispos católicos e o Vaticano estavam encobrindo estes crimes muito antes da sociedade irlandesa se tornar mais secular. O que a secularização fez foi capacitar as vítimas destes crimes a falar sobre suas experiências, e mais importante, serem escutadas e acreditadas. E a secularização ajudou a revelar os métodos tradicionais usados pela hierarquia católica para encobrir estes crimes, como obrigar as crianças a jurarem segredo e transferir os criminosos para outras paróquias, dioceses ou países, onde eles poderiam estuprar mais crianças.
Esta alegação falsa sobre o secularismo é parte de um padrão da igreja católica de negação da responsabilidade por seus atos. No início deste mês, o exorcista oficial (!) do Vaticano culpou "Satã agindo no Vaticano" por padres estuprarem crianças. E em setembro do ano passado, o representante do Vaticano nas Nações Unidas argumentou que o abuso sexual infantil era comum entre judeus; que menos de 5% do clero católico eram estupradores; e que a maioria deles eram na verdade efebófilos e não pedófilos, porque eles se sentiam atraídos por garotos adolescentes. Este "rodeio" tem que parar. Está na hora da igreja católica parar de botar a culpa de seus crimes nos outros.
3. Os pedidos de desculpas do papa são incompletos e seus apelos são em causa própria
Na Seção 5, o papa diz que se encontrou com vítimas de abuso sexual, e está pronto para fazer isso de novo (?). Ele diz que já pediu aos bispos irlandeses para revelarem a verdade sobre o que aconteceu no passado, para prevenir que isto ocorra de novo e para trazer justiça e cura às vítimas destes crimes. Ele então introduz uma série de parágrafos direcionados diretamente às vítimas, seus abusadores, pais, crianças e jovens, padres e religiosos, bispos e todos os fieis da Irlanda. Nada disto serve como propósito para trazer justiça e cura para as vítimas destes crimes.
3(a) Vítimas e os padres que abusaram delas
Na Seção 6, o papa finalmente fala às vítimas de abuso e suas famílias. Ele pede desculpas pelo seu sofrimento, mas descreve os abusos na voz passiva: "Vocês sofreram... a injúria que vocês suportaram... Sua confiança foi traída... Sua dignidade foi violada..." Ele parece ser incapaz de alegar direta responsabilidade pelo que a igreja fez. Isto seria dito como: "Nós fizemos vocês sofrerem... nós traímos sua confiança...", etc. O papa então se afasta do mundo real, dizendo às vítimas que Jesus compreende a dor delas, pois ele também foi uma vítima de injustiça, mas que as feridas de Jesus romperam o poder do mal e as pessoas renasceram. Ele conclui dizendo que as vítimas podem encontrar a paz "se aproximando de Cristo e participando na vida de Sua igreja." Dois pontos surgem aqui: primeiro, o papa deveria ter se desculpado com as vítimas no começo da carta, e não no tópico número 6. E segundo, a sugestão de que elas podem encontrar paz participando na igreja que ainda está escondendo os crimes contra elas e contra outras crianças ao redor do mundo é profundamente ofensivo.
Na Seção 7, o papa fala aos padres e religiosos que abusaram de crianças. Ele diz que eles traíram a confiança depositada neles pelas crianças, e "devem responder por isso diante de Deus Todo Poderoso e diante de tribunais devidamente constituídos." Ele não especifica o que a ambígua frase "tribunais devidamente constituídos" significa. Ele diz a eles que eles fizeram grandes danos à igreja e à percepção pública do sacerdócio. Ele diz que Cristo pode perdoá-los pelo mais grave dos pecados, mas a "justiça de Deus" exige que eles não escondam nada sobre suas ações. Ele os incita a "abertamente reconhecer sua culpa, submeterem-se às exigências da justiça, mas não se desanimarem da misericórdia de Deus." Dado que a sentença anterior se refere à "justiça de Deus", é incerto se "submeterem-se às exigências da justiça" significa se entregar para a polícia ou não.
3(b) Outros padres e bispos irlandeses
Na Seção 10, o papa se dirige aos padres e religiosos irlandeses. Ele diz a eles: "Todos estamos sofrendo como resultado dos pecados de nossos confrades que traíram uma confiança sagrada ou falharam em lidar justamente e responsavelmente com as alegações de abuso." Notavelmente, o papa não inclui ele mesmo entre aqueles que "falharam em lidar justamente e responsavelmente com as alegações de abuso.". Esta é talvez a mais significativa frase da carta, com um ponto crucial oculto indiretamente na construção de um ponto diferente. Porque, até que o papa aceite que ele tem a responsabilidade definitiva pelo encobrimento destes crimes, tanto como papa como em seu antigo cargo de cardeal e bispo, ele será incapaz de falar sobre esse assunto na forma que deve ser falado.
Na Seção 11, o papa final se volta aos seus "bispos irmãos" na Irlanda. Esta devia ser a Seção 2, depois do pedido de desculpas às vítimas, que deveria ter sido a Seção 1. Nesta seção o papa escreve que alguns bispos "falharam, algumas vezes gravemente", em aplicar a lei canônica (presumivelmente a lei canônica) ao crime de abuso à criança. Ele acrescenta que: "Eu reconheço que como foi difícil compreender a extensão e a complexidade do problema, obter informação confiável e tomar decisões corretas à luz de conselhos conflitantes de especialistas." Isto é completamente sem sentido. O "problema" não era de forma alguma complexo. Se você está ciente que um homem está estuprando crianças com frequência, e você tem uma bússola moral minimamente funcional, você sabe que esse é um crime sério que deve ser comunicado à polícia.
O papa então diz aos bispos irlandeses: "Além de cumprir em sua totalidade as normas da lei canônica nos casos de abuso infantil, continuem a cooperar com as autoridades civis em suas áreas de competência." Podemos notar aqui a ordem de prioridade: lei canônica primeiro, autoridades civis em segundo, e as autoridades civis ainda são qualificadas com a frase condescendente "em suas áreas de competência." A priorização da lei canônica aparece novamente na próxima sentença: "bispos devem assegurar que as leis de segurança às crianças sejam inteiramente e imparcialmente aplicadas 'em conformidade com a lei canônica'." Não há referência paralela para "em conformidade com a lei civil." O papa então pede por "ações decisivas, cumpridas com completa honestidade e transparência", mas o propósito estabelecido destas ações decisivas não é para trazer justiça e/ou reparação, mas para restaurar a reputação da igreja.
O papa não repete aos bispos as coisas que ele disse aos padres, cujos crimes foram acobertados pelos bispos. Ele não diz aos bispos que eles traíram a confiança que lhes foi depositada pelas crianças, e que "devem responder por isso perante Deus Todo Poderoso e perante tribunais adequadamente constituídos." Ele não diz aos bispos que a "Justiça de Deus" exige que eles não escondam nada de seus atos. Ele não diz aos bispos para "abertamente reconhecerem sua culpa e submeterem-se às exigências da justiça." Isto é porque o papa vê o "problema de abuso sexual infantil" como sendo causado por padres individuais, e ele claramente não aceita as descobertas de investigações independentes que a igreja, num nível institucional acobertou esses crimes horrendos.
3(c) Pais, crianças e fiéis
Nas seções 8 e 9, o papa se dirige aos pais e aos jovens. Ele diz que os pais são os principais responsáveis por criar e educar seus filhos em autênticos valores morais, e inspirá-los com a verdade da fé católica. Ele diz que pais deviam fazer isto enquanto a igreja "continua a implementar as medidas adotados nos últimos anos para proteger os jovens nas paróquias e nos ambientes escolares." E ele pede às crianças e jovens para buscarem uma relação pessoal com Jesus dentro da igreja, porque Jesus nunca irá traí-los. Ele conclui pedindo aos jovens para serem discípulos fiéis na reconstrução e renovação da igreja.
Nas seções 12 e 13 o papa se dirige aos fiéis católicos na Irlanda. De novo ele ataca nossa "sociedade cada vez mais secularizada, aonde até nós cristãos frequentemente temos dificuldades para falar sobre as dimensões transcendentes da nossa existência." Isto não é verdade. E o papa deve saber disso. Uma sociedade secular não impede as pessoas de falarem sobre quaisquer crenças transcendentes que elas tenham. Ela somente previne que tais crenças se tornem a base na qual a política civil é formulada. O papa então escreve que mesmo que "medidas para lidar justamente com crimes individuais são essenciais, sozinhas elas não são suficientes.", e por isso devem ser aumentadas com uma nova visão baseada em seguir os mandamentos das escrituras. O papa conclui dizendo que ele está rezando solidariamente por todos seus irmãos e irmãs em Cristo.
4. As "iniciativas concretas" do papa são uma distração, não uma solução
Na seção 14, de longe a mais comprida, o papa propõe o que ele chama de "algumas iniciativas concretas para remediar a situação." Essas iniciativas vêm a ser: pedir a todos os católicos irlandeses para rezarem e irem à confissão com mais frequência em um período de um ano; fazer uma visitação apostólica a algumas dioceses e seminários na Irlanda; criar uma Missão para bispos e padres irlandeses através da intercessão de um padre francês do século 19 que pregou total obediência à hierarquia e que se engajou a flagelação corporal; e escrever uma nova prece para a igreja da Irlanda. Esta é a soma total de todas as "iniciativas concretas" do papa.
4(a) Mais oração e mais confissão
A primeira “iniciativa concreta” do Papa é pedir para que todos Católicos irlandeses, pelo período de um ano, entre agora e a Páscoa de 2011, dediquem suas penitências de sexta-feira a uma “expansão da misericórdia de Deus e dos dons e força do Espírito Santo” sobre a igreja da Irlanda. Ele pede para os Católicos irlandeses jejuarem, rezarem, lerem a escritura e façam obras de misericórdia para esse propósito específico; irem à Confissão mais frequentemente; e venerarem a Eucaristia Santa fora da Missa. O Papa diz que, através dessa intensa oração, todos os Católicos irlandeses “podem trazer reparação pelos pecados de abuso que fizeram tanto mal”.
Vamos examinar cada aspecto dessa proposta. Pede-se a todos os Católicos irlandeses que rezem com mais frequência e intensidade, não pelas crianças que foram estupradas por padres Católicos, mas por um renascimento da igreja Católica na Irlanda. Pede-se que ofereçam obras de misericórdia, não pelo propósito de ser misericordioso, mas novamente pelo renascimento da igreja Católica. O Papa diz que isso, somado a mais Confissão e mais adoração da Eucaristia, pode “trazer reparação pelos pecados de abuso”. Mas por que os Católicos irlandeses devem ser responsáveis por trazer reparação para padres estuprando crianças e bispos acobertando esses estupros?
Essa não é de fato uma iniciativa concreta, mas um apelo abstrato a todos Católicos irlandeses para dividir a culpa pelos crimes dos padres e os acobertamentos dos bispos. Estudos científicos mostraram que orações não têm impacto no mundo natural. As orações propostas pelo Papa têm um horário arbitrário de “um período de um ano”, o qual coincidentemente combina com sua arbitrária oferta de um ano de livres indulgências plenárias a católicos que visitaram Lourdes em 2009. E o foco em adorar a Santa Eucaristia fora da missa ressalta o mais supersticioso aspecto do ensino Católico.
4(b) Uma visitação apostólica e uma missão
A segunda “iniciativa concreta” do Papa é que os oficiais do Vaticano visitem certos seminários, dioceses e instituições religiosas na Irlanda. O propósito estabelecido não é trazer reparação às crianças estupradas por padres, mas sim “assistir a igreja local em seu caminho à renovação”. A terceira “iniciativa concreta” do Papa é que todos os bispos, padres e religiosos Irlandeses devem atender a uma Missão nacional na qual podem reaprender suas vocações e recentes ensinamentos pontífices. Aqui o Papa sugere que os padres e bispos irlandeses sigam o exemplo de São John Vianney, e diz que a Missão proposta deve operar através da intercessão de Vianney.
E quem é esse santo modelo cujo exemplo o Papa sugere aos padres e bispos irlandeses? Uma carta circular do Papa João XXIII diz que Vianney foi “excelente na virtude da obediência... estamos oferecendo aos clérigos essa total obediência como um modelo... a eficiência de qualquer apostolado deve-se à constante e fiel obediência na hierarquia de sua sólida fundação”. A mesma carta diz que Vianney foi “excelente de uma maneira única na flagelação de seu corpo... isso o levou à quase completa abstinência de comida e de sono [e] a cumprir os mais severos tipos de penitências... ele levou seu corpo à submissão através de flagelação voluntária”. Esse tipo de fundamentalismo é realmente a fundação sob a qual revitalizar a igreja Católica hoje?
O Papa conclui sua carta com uma oração pela igreja na Irlanda. Ele quer que os Católicos irlandeses façam uso dessa oração em suas famílias, paróquias e comunidades. A oração pede a Deus para renovar os Católicos irlandeses com fé, esperança e caridade. Ela pede a Jesus para ajudar a igreja Católica na Irlanda a educar jovens no caminho da verdade e bondade. Pede ao Espírito Santo para inspirar uma nova primavera de santidade e fervor apostólico na Irlanda. Ela pede que a mágoa e as lágrimas dos Católicos irlandeses, enquanto tentam corrigir erros do passado, tragam graça, que irá aprofundar a fé católica na Irlanda. E termina confiando ao Deus Trino “nós, nossas crianças, e as necessidades da igreja na Irlanda”. Em nenhum lugar nessa oração as palavras “vítima”, “abuso sexual”, “estupro”, “crime”, “encobrimento”, ou “desculpas” aparecem. Não surpreendentemente, em sintonia o tom de toda a carta, a oração é concluída enfocando as “necessidades da igreja”.
5. O papa está se esquivando das responsabilidades da igreja para com a sociedade
Tendo lido toda a carta, o seguinte me parece claro:
1. A principal prioridade do papa é proteger a igreja, e não as vítimas
2. O papa erroneamente culpa o secularismo pelos estupros de crianças pelos padres
3. Os pedidos de desculpas do papa são incompletos e seus apelos são em causa própria
4. As "iniciativas concretas" do papa são uma distração, não uma solução
5. O papa está se esquivando das responsabilidades da igreja para com a sociedade
Todas as iniciativas propostas pelo Papa são uma distração dos tipos de iniciativa que poderiam realmente fazer diferença. Estas poderiam incluir: reconhecer voluntariamente que a igreja está sujeita às mesmas leis civis democráticas do que todos nós; aceitar abertamente os resultados das várias investigações Irlandesas; reconhecer voluntariamente que a igreja Católica, a um nível institucional, encobriu crimes de padres contra crianças; voluntariamente tornar públicos todos os arquivos da igreja que as vítimas desejarem sobre esses crimes e sobre o acobertamento desses crimes; vender voluntariamente propriedades da igreja para voluntariamente recompensar vítimas; voluntariamente denunciar à polícia todos os padres que cometeram crimes e todos os bispos que encobriram esses crimes, e voluntariamente declarar-se culpada por quaisquer crimes cometidos.
O Papa conclui sua carta com uma oração, mas sua igreja continua a alternar entre ser uma religião ou um Estado, dependendo do que for mais conveniente ao momento. O mecanismo para isso é seu quasi-Estado na cidade do Vaticano, que não possui nenhum dos atributos de um Estado, como cidadãos, território e economia, entretanto envia embaixadores a Estados reais e é tratado quase como um Estado real pelas Nações Unidas. O que a igreja Católica faz como uma religião é da sua própria conta. Mas ela ainda está claramente em profunda negação do impacto de seu comportamento na sociedade mais ampla, então o resto de nós deveria reconhecer isso em nossas interações com essa igreja.
A DDP e polícia irlandesa devem tomar providências agora para garantir que bispos que encobriram crimes sérios contra crianças sejam levados à justiça. O Governo irlandês deve tomar providências para remover a influência da igreja Católica em nosso sistema de educação e de saúde. Particularmente, os direitos humanos de pais não-religiosos de terem um sistema de educação secular devem ser reivindicados em todas as regiões do país. O Governo deve rever sua relação com o quasi-Estado da igreja Católica na Cidade do Vaticano. O Governo deve procurar fazer com que as Nações Unidas tratem a igreja Católica como qualquer outra religião, dando ouvidos a ela como uma organização não-governamental, e não a tratando como um quasi-Estado.
Se a igreja Católica não vai encarar voluntariamente suas responsabilidades na sociedade cívica, as instituições do Estado devem certificar-se de que ela o faça. E nós, o povo, devemos pressionar nossos políticos a fazerem com que isso aconteça o mais rápido possível.
Tradução:
Humberto S. Berwanger: http://twitter.com/BertmanSB
Giulia Raquel Cantarutti: http://twitter.com/eugiu
Texto original de Michael Nugent
Link para o texto original
http://www.michaelnugent.com/2010/03/21/popes-letter-protects-church-not-its-victims/
A carta do papa possui lições para a sociedade civil
O que ele escreve para os católicos sobre religião é um assunto entre eles. Mas a igreja católica também opera dentro da sociedade civil, age como um quasi-Estado nas Nações Unidas e envia embaixadores para Estados reais.
E a carta do papa inclui afirmações sobre a sociedade secular que são factualmente erradas.
Tendo lido toda a carta, o seguinte me parece claro:
1. A principal prioridade do papa é proteger a igreja, e não as vítimas
2. O papa erroneamente culpa o secularismo pelos estupros de crianças pelos padres
3. Os pedidos de desculpas do papa são incompletos e seus apelos são em causa própria
4. As "iniciativas concretas" do papa são uma distração, não uma solução
5. O papa está se esquivando das responsabilidades da igreja para com a sociedade
1. A principal prioridade do papa é proteger a igreja, e não as vítimas
Em uma carta de aproximadamente 5 mil palavras, a expressão "abuso sexual" aparece apenas 3 vezes, e em lugar algum ela é usada como um verbo ativo descrevendo uma ação que os padres católicos fizeram às crianças. Ao invés disso, ela é descrita duas vezes abstratamente como "o problema do abuso sexual infantil", e uma vez passivamente como "as vítimas do abuso sexual infantil". Em contraste, a palavra "igreja" aparece mais de 50 vezes. Nada surpreendente o fato das palavras "estupro" e "encobrir" (o caso) não aparecerem nenhuma vez na carta.
Um dos três usos da expressão "abuso sexual" é: "Desde o momento em que a gravidade e extensão do problema do abuso sexual infantil nas instituições católicas começaram a ser compreendidos, a igreja tem trabalhado bastante em muitas partes do mundo com o intuito de chamar a atenção para o problema e remediá-lo." Esta afirmação é falsa. A igreja católica sabe há séculos que alguns padres têm estuprado crianças, e eles sabem há séculos que estuprar crianças é gravemente errado, tanto como pecado na religião deles como um crime na sociedade civil.
O papa nem mesmo reconhece (desculpar-se muito menos) a política da igreja católica de os bispos repetidamente encobrirem os caso de estupro de crianças por padres. Ao invés disso ele eufemisticamente se refere a "erros" por parte dos bispos quando responde as alegações, e nem sequer inclui o Vaticano ou ele mesmo como responsáveis por tais "erros". Ao usar este linguajar evasivo, ele está na verdade regredindo em relação a dezembro passado, quando bispos Irlandeses admitiram que o relatório Murphy indicava uma cultura generalizada na igreja de encobrir os casos de abuso sexual.
Em uma declaração emitida durante o encontro em Maynooth, em novembro de 2009, os bispos irlandeses disseram: "Nós estamos profundamente chocados com a escala e depravação dos abusos, como descritos no relatório. Estamos envergonhados pela extensão do encobrimento dos abusos na arquidiocese de Dublin e reconhecemos que isto indica um hábito que estava alastrado dentro da igreja. O ato de evitar escândalos, a preservação das reputações de indivíduos e da igreja teve prioridade sobre a segurança e saúde das crianças. Isto nunca deveria ter acontecido e não dever ser permitido que aconteça de novo. Nós humildemente pedimos por perdão."
Apesar desta explícita admissão em dezembro passado pelos bispos irlandeses, a carta pastoral do papa contém algumas dicas subliminares sobre o que preocupa ele mais sobre este assunto. Na Seção 1, o papa escreve: "Eu estou profundamente perturbado com a informação que veio à luz com respeito ao abuso de crianças...". Como seria mais forte esta sentença de abertura da carta se ele tivesse simplesmente dito: "Eu estou profundamente perturbado com o abuso de crianças...". Como teria sido mais impactante se ele tivesse usado o mesmo modo de falar que os bispos irlandeses usaram em dezembro.
Em vez disso, na Seção 2, o papa diz que: "Para se recuperar desta dolorosa ferida, a igreja na Irlanda deve primeiro reconhecer perante o Senhor e perante as pessoas os sérios pecados cometidos contra crianças indefesas. Tal reconhecimento, acompanhado pela sincera mágoa pelo dano causado a estas vítimas e suas famílias, deve conduzir a um esforço combinado para garantir que as crianças estejam protegidas de crimes similares no futuro."
À primeira vista, isto parece louvável. Mas leia novamente para ver as nuances. A razão pela qual pecados contra crianças devem ser reconhecidos é para permitir que a igreja (e não as vítimas) se recupere desta "dolorosa ferida". É apenas como um ponto subsequente que isto deve ser acompanhado de mágoa pelo dano causado às vítimas. Se você analisar o modo de falar no decorrer da carta, as mesmas prioridades são repetidas. A prioridade desta carta é revitalizar a igreja católica, e não buscar justiça ou buscar reparação para suas vítimas.
2. O papa erroneamente culpa o secularismo pelos estupros de crianças pelos padres
A Seção 3 é uma breve história estapafúrdia, da perspectiva do papa, do catolicismo irlandês e do impacto dos missionários católicos irlandeses na Europa e em outros continentes. Para uma visão geral, ele sugere que, por séculos, clérigos irlandeses "dedicaram suas vidas à Cristo, compartilhando a dádiva da fé com outros, e colocando está fé em ação em amar o 'servir a Deus' e o próximo."
Na seção 4, o papa diz que isto tudo mudou em décadas recentes, por causa de "novos e sérios desafios à fé surgindo da rápida transformação e secularização da sociedade irlandesa." Ele escreve que "o ritmo acelerado da mudança social" fez com que católicos irlandeses se confessassem e rezassem com menos frequência, e que padres irlandeses "avaliassem as realidades seculares sem referências suficientes às escrituras." Isto inclui "uma bem-intencionada mas equivocada tendência em evitar confrontos penais em situações canonicamente irregulares."
Isto, o papa escreve, é o "contexto geral" no qual "devemos tentar entender o perturbador problema do abuso sexual infantil, que contribuiu muito para o enfraquecimento da fé e a perda do respeito pela igreja e seus ensinamentos." Olhe de novo para as nuances deste linguajar. O papa está sugerindo que a secularização da sociedade é o contexto no qual devemos julgar padres estuprando crianças, o que consequentemente enfraquece a fé e o respeito pela igreja. Isto é baboseira egoísta. A realidade é quase exatamente o oposto.
Padres católicos estavam estuprando crianças, e bispos católicos e o Vaticano estavam encobrindo estes crimes muito antes da sociedade irlandesa se tornar mais secular. O que a secularização fez foi capacitar as vítimas destes crimes a falar sobre suas experiências, e mais importante, serem escutadas e acreditadas. E a secularização ajudou a revelar os métodos tradicionais usados pela hierarquia católica para encobrir estes crimes, como obrigar as crianças a jurarem segredo e transferir os criminosos para outras paróquias, dioceses ou países, onde eles poderiam estuprar mais crianças.
Esta alegação falsa sobre o secularismo é parte de um padrão da igreja católica de negação da responsabilidade por seus atos. No início deste mês, o exorcista oficial (!) do Vaticano culpou "Satã agindo no Vaticano" por padres estuprarem crianças. E em setembro do ano passado, o representante do Vaticano nas Nações Unidas argumentou que o abuso sexual infantil era comum entre judeus; que menos de 5% do clero católico eram estupradores; e que a maioria deles eram na verdade efebófilos e não pedófilos, porque eles se sentiam atraídos por garotos adolescentes. Este "rodeio" tem que parar. Está na hora da igreja católica parar de botar a culpa de seus crimes nos outros.
3. Os pedidos de desculpas do papa são incompletos e seus apelos são em causa própria
Na Seção 5, o papa diz que se encontrou com vítimas de abuso sexual, e está pronto para fazer isso de novo (?). Ele diz que já pediu aos bispos irlandeses para revelarem a verdade sobre o que aconteceu no passado, para prevenir que isto ocorra de novo e para trazer justiça e cura às vítimas destes crimes. Ele então introduz uma série de parágrafos direcionados diretamente às vítimas, seus abusadores, pais, crianças e jovens, padres e religiosos, bispos e todos os fieis da Irlanda. Nada disto serve como propósito para trazer justiça e cura para as vítimas destes crimes.
3(a) Vítimas e os padres que abusaram delas
Na Seção 6, o papa finalmente fala às vítimas de abuso e suas famílias. Ele pede desculpas pelo seu sofrimento, mas descreve os abusos na voz passiva: "Vocês sofreram... a injúria que vocês suportaram... Sua confiança foi traída... Sua dignidade foi violada..." Ele parece ser incapaz de alegar direta responsabilidade pelo que a igreja fez. Isto seria dito como: "Nós fizemos vocês sofrerem... nós traímos sua confiança...", etc. O papa então se afasta do mundo real, dizendo às vítimas que Jesus compreende a dor delas, pois ele também foi uma vítima de injustiça, mas que as feridas de Jesus romperam o poder do mal e as pessoas renasceram. Ele conclui dizendo que as vítimas podem encontrar a paz "se aproximando de Cristo e participando na vida de Sua igreja." Dois pontos surgem aqui: primeiro, o papa deveria ter se desculpado com as vítimas no começo da carta, e não no tópico número 6. E segundo, a sugestão de que elas podem encontrar paz participando na igreja que ainda está escondendo os crimes contra elas e contra outras crianças ao redor do mundo é profundamente ofensivo.
Na Seção 7, o papa fala aos padres e religiosos que abusaram de crianças. Ele diz que eles traíram a confiança depositada neles pelas crianças, e "devem responder por isso diante de Deus Todo Poderoso e diante de tribunais devidamente constituídos." Ele não especifica o que a ambígua frase "tribunais devidamente constituídos" significa. Ele diz a eles que eles fizeram grandes danos à igreja e à percepção pública do sacerdócio. Ele diz que Cristo pode perdoá-los pelo mais grave dos pecados, mas a "justiça de Deus" exige que eles não escondam nada sobre suas ações. Ele os incita a "abertamente reconhecer sua culpa, submeterem-se às exigências da justiça, mas não se desanimarem da misericórdia de Deus." Dado que a sentença anterior se refere à "justiça de Deus", é incerto se "submeterem-se às exigências da justiça" significa se entregar para a polícia ou não.
3(b) Outros padres e bispos irlandeses
Na Seção 10, o papa se dirige aos padres e religiosos irlandeses. Ele diz a eles: "Todos estamos sofrendo como resultado dos pecados de nossos confrades que traíram uma confiança sagrada ou falharam em lidar justamente e responsavelmente com as alegações de abuso." Notavelmente, o papa não inclui ele mesmo entre aqueles que "falharam em lidar justamente e responsavelmente com as alegações de abuso.". Esta é talvez a mais significativa frase da carta, com um ponto crucial oculto indiretamente na construção de um ponto diferente. Porque, até que o papa aceite que ele tem a responsabilidade definitiva pelo encobrimento destes crimes, tanto como papa como em seu antigo cargo de cardeal e bispo, ele será incapaz de falar sobre esse assunto na forma que deve ser falado.
Na Seção 11, o papa final se volta aos seus "bispos irmãos" na Irlanda. Esta devia ser a Seção 2, depois do pedido de desculpas às vítimas, que deveria ter sido a Seção 1. Nesta seção o papa escreve que alguns bispos "falharam, algumas vezes gravemente", em aplicar a lei canônica (presumivelmente a lei canônica) ao crime de abuso à criança. Ele acrescenta que: "Eu reconheço que como foi difícil compreender a extensão e a complexidade do problema, obter informação confiável e tomar decisões corretas à luz de conselhos conflitantes de especialistas." Isto é completamente sem sentido. O "problema" não era de forma alguma complexo. Se você está ciente que um homem está estuprando crianças com frequência, e você tem uma bússola moral minimamente funcional, você sabe que esse é um crime sério que deve ser comunicado à polícia.
O papa então diz aos bispos irlandeses: "Além de cumprir em sua totalidade as normas da lei canônica nos casos de abuso infantil, continuem a cooperar com as autoridades civis em suas áreas de competência." Podemos notar aqui a ordem de prioridade: lei canônica primeiro, autoridades civis em segundo, e as autoridades civis ainda são qualificadas com a frase condescendente "em suas áreas de competência." A priorização da lei canônica aparece novamente na próxima sentença: "bispos devem assegurar que as leis de segurança às crianças sejam inteiramente e imparcialmente aplicadas 'em conformidade com a lei canônica'." Não há referência paralela para "em conformidade com a lei civil." O papa então pede por "ações decisivas, cumpridas com completa honestidade e transparência", mas o propósito estabelecido destas ações decisivas não é para trazer justiça e/ou reparação, mas para restaurar a reputação da igreja.
O papa não repete aos bispos as coisas que ele disse aos padres, cujos crimes foram acobertados pelos bispos. Ele não diz aos bispos que eles traíram a confiança que lhes foi depositada pelas crianças, e que "devem responder por isso perante Deus Todo Poderoso e perante tribunais adequadamente constituídos." Ele não diz aos bispos que a "Justiça de Deus" exige que eles não escondam nada de seus atos. Ele não diz aos bispos para "abertamente reconhecerem sua culpa e submeterem-se às exigências da justiça." Isto é porque o papa vê o "problema de abuso sexual infantil" como sendo causado por padres individuais, e ele claramente não aceita as descobertas de investigações independentes que a igreja, num nível institucional acobertou esses crimes horrendos.
3(c) Pais, crianças e fiéis
Nas seções 8 e 9, o papa se dirige aos pais e aos jovens. Ele diz que os pais são os principais responsáveis por criar e educar seus filhos em autênticos valores morais, e inspirá-los com a verdade da fé católica. Ele diz que pais deviam fazer isto enquanto a igreja "continua a implementar as medidas adotados nos últimos anos para proteger os jovens nas paróquias e nos ambientes escolares." E ele pede às crianças e jovens para buscarem uma relação pessoal com Jesus dentro da igreja, porque Jesus nunca irá traí-los. Ele conclui pedindo aos jovens para serem discípulos fiéis na reconstrução e renovação da igreja.
Nas seções 12 e 13 o papa se dirige aos fiéis católicos na Irlanda. De novo ele ataca nossa "sociedade cada vez mais secularizada, aonde até nós cristãos frequentemente temos dificuldades para falar sobre as dimensões transcendentes da nossa existência." Isto não é verdade. E o papa deve saber disso. Uma sociedade secular não impede as pessoas de falarem sobre quaisquer crenças transcendentes que elas tenham. Ela somente previne que tais crenças se tornem a base na qual a política civil é formulada. O papa então escreve que mesmo que "medidas para lidar justamente com crimes individuais são essenciais, sozinhas elas não são suficientes.", e por isso devem ser aumentadas com uma nova visão baseada em seguir os mandamentos das escrituras. O papa conclui dizendo que ele está rezando solidariamente por todos seus irmãos e irmãs em Cristo.
4. As "iniciativas concretas" do papa são uma distração, não uma solução
Na seção 14, de longe a mais comprida, o papa propõe o que ele chama de "algumas iniciativas concretas para remediar a situação." Essas iniciativas vêm a ser: pedir a todos os católicos irlandeses para rezarem e irem à confissão com mais frequência em um período de um ano; fazer uma visitação apostólica a algumas dioceses e seminários na Irlanda; criar uma Missão para bispos e padres irlandeses através da intercessão de um padre francês do século 19 que pregou total obediência à hierarquia e que se engajou a flagelação corporal; e escrever uma nova prece para a igreja da Irlanda. Esta é a soma total de todas as "iniciativas concretas" do papa.
4(a) Mais oração e mais confissão
A primeira “iniciativa concreta” do Papa é pedir para que todos Católicos irlandeses, pelo período de um ano, entre agora e a Páscoa de 2011, dediquem suas penitências de sexta-feira a uma “expansão da misericórdia de Deus e dos dons e força do Espírito Santo” sobre a igreja da Irlanda. Ele pede para os Católicos irlandeses jejuarem, rezarem, lerem a escritura e façam obras de misericórdia para esse propósito específico; irem à Confissão mais frequentemente; e venerarem a Eucaristia Santa fora da Missa. O Papa diz que, através dessa intensa oração, todos os Católicos irlandeses “podem trazer reparação pelos pecados de abuso que fizeram tanto mal”.
Vamos examinar cada aspecto dessa proposta. Pede-se a todos os Católicos irlandeses que rezem com mais frequência e intensidade, não pelas crianças que foram estupradas por padres Católicos, mas por um renascimento da igreja Católica na Irlanda. Pede-se que ofereçam obras de misericórdia, não pelo propósito de ser misericordioso, mas novamente pelo renascimento da igreja Católica. O Papa diz que isso, somado a mais Confissão e mais adoração da Eucaristia, pode “trazer reparação pelos pecados de abuso”. Mas por que os Católicos irlandeses devem ser responsáveis por trazer reparação para padres estuprando crianças e bispos acobertando esses estupros?
Essa não é de fato uma iniciativa concreta, mas um apelo abstrato a todos Católicos irlandeses para dividir a culpa pelos crimes dos padres e os acobertamentos dos bispos. Estudos científicos mostraram que orações não têm impacto no mundo natural. As orações propostas pelo Papa têm um horário arbitrário de “um período de um ano”, o qual coincidentemente combina com sua arbitrária oferta de um ano de livres indulgências plenárias a católicos que visitaram Lourdes em 2009. E o foco em adorar a Santa Eucaristia fora da missa ressalta o mais supersticioso aspecto do ensino Católico.
4(b) Uma visitação apostólica e uma missão
A segunda “iniciativa concreta” do Papa é que os oficiais do Vaticano visitem certos seminários, dioceses e instituições religiosas na Irlanda. O propósito estabelecido não é trazer reparação às crianças estupradas por padres, mas sim “assistir a igreja local em seu caminho à renovação”. A terceira “iniciativa concreta” do Papa é que todos os bispos, padres e religiosos Irlandeses devem atender a uma Missão nacional na qual podem reaprender suas vocações e recentes ensinamentos pontífices. Aqui o Papa sugere que os padres e bispos irlandeses sigam o exemplo de São John Vianney, e diz que a Missão proposta deve operar através da intercessão de Vianney.
E quem é esse santo modelo cujo exemplo o Papa sugere aos padres e bispos irlandeses? Uma carta circular do Papa João XXIII diz que Vianney foi “excelente na virtude da obediência... estamos oferecendo aos clérigos essa total obediência como um modelo... a eficiência de qualquer apostolado deve-se à constante e fiel obediência na hierarquia de sua sólida fundação”. A mesma carta diz que Vianney foi “excelente de uma maneira única na flagelação de seu corpo... isso o levou à quase completa abstinência de comida e de sono [e] a cumprir os mais severos tipos de penitências... ele levou seu corpo à submissão através de flagelação voluntária”. Esse tipo de fundamentalismo é realmente a fundação sob a qual revitalizar a igreja Católica hoje?
O Papa conclui sua carta com uma oração pela igreja na Irlanda. Ele quer que os Católicos irlandeses façam uso dessa oração em suas famílias, paróquias e comunidades. A oração pede a Deus para renovar os Católicos irlandeses com fé, esperança e caridade. Ela pede a Jesus para ajudar a igreja Católica na Irlanda a educar jovens no caminho da verdade e bondade. Pede ao Espírito Santo para inspirar uma nova primavera de santidade e fervor apostólico na Irlanda. Ela pede que a mágoa e as lágrimas dos Católicos irlandeses, enquanto tentam corrigir erros do passado, tragam graça, que irá aprofundar a fé católica na Irlanda. E termina confiando ao Deus Trino “nós, nossas crianças, e as necessidades da igreja na Irlanda”. Em nenhum lugar nessa oração as palavras “vítima”, “abuso sexual”, “estupro”, “crime”, “encobrimento”, ou “desculpas” aparecem. Não surpreendentemente, em sintonia o tom de toda a carta, a oração é concluída enfocando as “necessidades da igreja”.
5. O papa está se esquivando das responsabilidades da igreja para com a sociedade
Tendo lido toda a carta, o seguinte me parece claro:
1. A principal prioridade do papa é proteger a igreja, e não as vítimas
2. O papa erroneamente culpa o secularismo pelos estupros de crianças pelos padres
3. Os pedidos de desculpas do papa são incompletos e seus apelos são em causa própria
4. As "iniciativas concretas" do papa são uma distração, não uma solução
5. O papa está se esquivando das responsabilidades da igreja para com a sociedade
Todas as iniciativas propostas pelo Papa são uma distração dos tipos de iniciativa que poderiam realmente fazer diferença. Estas poderiam incluir: reconhecer voluntariamente que a igreja está sujeita às mesmas leis civis democráticas do que todos nós; aceitar abertamente os resultados das várias investigações Irlandesas; reconhecer voluntariamente que a igreja Católica, a um nível institucional, encobriu crimes de padres contra crianças; voluntariamente tornar públicos todos os arquivos da igreja que as vítimas desejarem sobre esses crimes e sobre o acobertamento desses crimes; vender voluntariamente propriedades da igreja para voluntariamente recompensar vítimas; voluntariamente denunciar à polícia todos os padres que cometeram crimes e todos os bispos que encobriram esses crimes, e voluntariamente declarar-se culpada por quaisquer crimes cometidos.
O Papa conclui sua carta com uma oração, mas sua igreja continua a alternar entre ser uma religião ou um Estado, dependendo do que for mais conveniente ao momento. O mecanismo para isso é seu quasi-Estado na cidade do Vaticano, que não possui nenhum dos atributos de um Estado, como cidadãos, território e economia, entretanto envia embaixadores a Estados reais e é tratado quase como um Estado real pelas Nações Unidas. O que a igreja Católica faz como uma religião é da sua própria conta. Mas ela ainda está claramente em profunda negação do impacto de seu comportamento na sociedade mais ampla, então o resto de nós deveria reconhecer isso em nossas interações com essa igreja.
A DDP e polícia irlandesa devem tomar providências agora para garantir que bispos que encobriram crimes sérios contra crianças sejam levados à justiça. O Governo irlandês deve tomar providências para remover a influência da igreja Católica em nosso sistema de educação e de saúde. Particularmente, os direitos humanos de pais não-religiosos de terem um sistema de educação secular devem ser reivindicados em todas as regiões do país. O Governo deve rever sua relação com o quasi-Estado da igreja Católica na Cidade do Vaticano. O Governo deve procurar fazer com que as Nações Unidas tratem a igreja Católica como qualquer outra religião, dando ouvidos a ela como uma organização não-governamental, e não a tratando como um quasi-Estado.
Se a igreja Católica não vai encarar voluntariamente suas responsabilidades na sociedade cívica, as instituições do Estado devem certificar-se de que ela o faça. E nós, o povo, devemos pressionar nossos políticos a fazerem com que isso aconteça o mais rápido possível.
Wednesday, January 20, 2010
Porque os teístas não acreditam no que os ateus falam sobre o ateísmo?
[Traduzido a partir do seguinte artigo:
http://atheism.about.com/od/atheismatheiststheism/a/AtheistsIgnored.htm?nl=1]
Pergunta: Quando ateus explicam porque se tornaram ateus, o que ateísmo é, e o que não é, os teístas (e especialmente cristãos) muitas vezes se recusam a aceitar o que ouvem. Isso acontece até mesmo quando um ateu apenas responde a uma pergunta específica que lhe foi feita. Porque teístas se comportam dessa maneira? O que posso fazer a respeito?
Resposta: A maioria dos ateus que tiveram discussãoes com teistas, especialmente cristãos, sobre religião, teísmo, e ateísmo, já passaram isso. O ateu explica alguma coisa sobre o seu próprio ateismo (como porque se tornaram ateus) ou sobre ateismo em geral (como o quê é ateísmo) e o teista se recusa a acreditar nele. Mesmo que o teísta tenha feito uma pergunta direta e está recebendo uma resposta direta, eles agem como se já soubessem a resposta e descartam o que o ateu diz.
Tipicamente o teista alega que o ateu está de alguma forma “negando” a verdade. Ele não se tornou ateu porque realmente percebeu que os argumentos para a existência de deuses eram falhos, se tornou ateu porque queria viver uma vida imoral sem ter que responder perante ‘deus’. Ateismo não é apenas a falta de crença em deuses, é uma ideologia anti-deus , anti-cristã dedicada à erradicação da liberdade religiosa e a imposição de uma ditadura secular e socialista.
Essas crenças mantidas pelos teístas tem pouco ou nada a ver com a realidade, mas são anunciadas com grande convicção e sinceridade. Não importa o que o ateu diga ou faça, parece ter pouco impacto – o teísta vai continuar convencido de qualquer coisa que acreditasse desde o início, e um contato com um ateu real que não reflita nenhuma dessas coisas não é visto como um bom motivo para reconsiderar.
Considerando tudo isso, porque o teista fez qualquer pergunta para começar? Porque fazer perguntas quando se está convencido de que já se tem a resposta e não vai se deixar abalar por qualquer resposta, evidência ou argumento em contrário que se possa ouvir?
A resposta, creio, é que os cristãos que fazem essas perguntas não estão fazendo nenhuma pergunta de verdade. Uma pergunta verdadeira é uma admissão de desconhecimento, a expressão de um desejo de saber mais, e um convite para que alguém ajude uma pessoa a expandir o seu conhecimento, compreeensão, e horizontes. As pessoas só podem fazer perguntas genuínas na premissa de que existem coisas que elas deviam ou podiam saber que ainda não sabem, que elas podem estar enganadas sobre algumas coisas que pensam que sabem, e que poderia ser necessário mudar no futuro. Dadas essas condições, quantas vezes os cristãos fazem perguntas genuínas aos ateus? Não muitas, pela minha experiência.
Em vez disso, é muito mais comum que os cristão façam apenas perguntas retóricas sobre ateismo e ateus. São como pais perguntando aos seus filhos o que aconteceu com o biscoito que desapareceu: os pais sabem muito bem o que aconteceu e só estão interessados em ver se seus filhos irão admitir o que fizeram. Ateus que admitem estar cheios de ódio e em negação a ‘deus’ são crianças que agiram errado mas podem ser salvas porque reconhecem seus pecados. Ateus que se recusam a admitir isso estão duplamente condenados: não apenas odeiam e negam ‘deus’, mas se recusam a sequer ser honestos o suficiente para admitir o que fizeram.
É claro que muitas das perguntas que as pessoas fazem no seu dia-a-dia não cai em nenhum desses extremos. É comum que não estejamos nem absolutamente convencidos da reposta antecipadamente nem 100% abertos a alguma informação nova e emocionante da pessoa diante de nós. Todos temos idéias e tendências que fazem com que, acho que de forma bastante inconsciente, formemos opiniões antecipadas sobre que tipo de resposta vamos receber a muitas de nossas perguntas. Podemos não saber porque um político está advogando em favor de determinada política, mas muito antes de receber uma resposta à nossa pergunta podemos suspeitar de que a influência de lobistas, racismo, indiferença aos pobres, ou outras motivações escusas estão envolvidas.
Ainda assim, quantas vezes declaramos em voz alta nossas supseitas ou negações à pessoa que acabou de responder a nossa pergunta? Mesmo quando temos fortes suspeitas, é improvável que façamos isso sem mais nem menos; Em vez disso, nós geralmente tomamos o que nos é dito pelo seu valor aparente. Quase ninguém tenta começar uma discussão alegando que a resposta é simplesmente uma mentira designada a encobrir a nossa negação da realidade. Se dissermos alguma coisa, será a outra pessoa, mais tarde, onde discretamente falaremos das nossas reservas, suspeitas ou preocupações.
Por algum motivo, entrtanto, tal educação e respeito básicos tendem a faltar quando se trata de como cristãos tratam os ateus. Um cristão que nunca diria a alguém “você não se casou com ele por amor, você casou pelo dinheiro!” não tem nenhum problema em dizer “você não deixou o cristianismo por estar persuadido por argumentos mais fortes em favor do ateismo, você o deixou porque teve experiências ruins com uma igreja ruim!” (ou alguma outra desculpa). E quantos desses mesmos cristãos enontraremos em outras situações reclamando que os ateus é que são mal educados, desrespeitosos e intolerantes?
A maioria dos ateus provavelmente não se incomodam em reponder perguntas genuínas sobre o seu ateísmo ou ateismo de forma geral, mas ele provavelmente também não estão nem um pouco interessados em perguntas falsas de alguém que arrogantemente presume que já sabe as respostas. Se fossem completamente honestos, não perguntariam “porque você é ateu?” mas simplesmente diriam “Não conheço você, nunca vi você antes, nunca conversei com você, não conheço nenhum amigo ou familiar seu, e nem sabia de sua existência até 10 minutos atrás, mas eu sei extamente porque você é ateu.”
Colocado dessa forma, claro, é uma postura absurda a adotar, e aqueles que estão inclinados a tentar deveriam parar antes de chegar a esse ponto. Ateus que se deparam com isso deveriam se recusar a jogar o seu jogo. Refaçam a pergunta retórica deles para a declaração actegórica que ela realmente é e faça o teista sustentar o que estão dizendo. As chances de eles conseguirem argumentar de forma razoável são tão pequenas que é praticamente garantido que você vai conseguir colocar um fim rápido a uma conversa que não ia ser produtiva de qualquer forma.
http://atheism.about.com/od/atheismatheiststheism/a/AtheistsIgnored.htm?nl=1]
Pergunta: Quando ateus explicam porque se tornaram ateus, o que ateísmo é, e o que não é, os teístas (e especialmente cristãos) muitas vezes se recusam a aceitar o que ouvem. Isso acontece até mesmo quando um ateu apenas responde a uma pergunta específica que lhe foi feita. Porque teístas se comportam dessa maneira? O que posso fazer a respeito?
Resposta: A maioria dos ateus que tiveram discussãoes com teistas, especialmente cristãos, sobre religião, teísmo, e ateísmo, já passaram isso. O ateu explica alguma coisa sobre o seu próprio ateismo (como porque se tornaram ateus) ou sobre ateismo em geral (como o quê é ateísmo) e o teista se recusa a acreditar nele. Mesmo que o teísta tenha feito uma pergunta direta e está recebendo uma resposta direta, eles agem como se já soubessem a resposta e descartam o que o ateu diz.
Tipicamente o teista alega que o ateu está de alguma forma “negando” a verdade. Ele não se tornou ateu porque realmente percebeu que os argumentos para a existência de deuses eram falhos, se tornou ateu porque queria viver uma vida imoral sem ter que responder perante ‘deus’. Ateismo não é apenas a falta de crença em deuses, é uma ideologia anti-deus , anti-cristã dedicada à erradicação da liberdade religiosa e a imposição de uma ditadura secular e socialista.
Essas crenças mantidas pelos teístas tem pouco ou nada a ver com a realidade, mas são anunciadas com grande convicção e sinceridade. Não importa o que o ateu diga ou faça, parece ter pouco impacto – o teísta vai continuar convencido de qualquer coisa que acreditasse desde o início, e um contato com um ateu real que não reflita nenhuma dessas coisas não é visto como um bom motivo para reconsiderar.
Considerando tudo isso, porque o teista fez qualquer pergunta para começar? Porque fazer perguntas quando se está convencido de que já se tem a resposta e não vai se deixar abalar por qualquer resposta, evidência ou argumento em contrário que se possa ouvir?
A resposta, creio, é que os cristãos que fazem essas perguntas não estão fazendo nenhuma pergunta de verdade. Uma pergunta verdadeira é uma admissão de desconhecimento, a expressão de um desejo de saber mais, e um convite para que alguém ajude uma pessoa a expandir o seu conhecimento, compreeensão, e horizontes. As pessoas só podem fazer perguntas genuínas na premissa de que existem coisas que elas deviam ou podiam saber que ainda não sabem, que elas podem estar enganadas sobre algumas coisas que pensam que sabem, e que poderia ser necessário mudar no futuro. Dadas essas condições, quantas vezes os cristãos fazem perguntas genuínas aos ateus? Não muitas, pela minha experiência.
Em vez disso, é muito mais comum que os cristão façam apenas perguntas retóricas sobre ateismo e ateus. São como pais perguntando aos seus filhos o que aconteceu com o biscoito que desapareceu: os pais sabem muito bem o que aconteceu e só estão interessados em ver se seus filhos irão admitir o que fizeram. Ateus que admitem estar cheios de ódio e em negação a ‘deus’ são crianças que agiram errado mas podem ser salvas porque reconhecem seus pecados. Ateus que se recusam a admitir isso estão duplamente condenados: não apenas odeiam e negam ‘deus’, mas se recusam a sequer ser honestos o suficiente para admitir o que fizeram.
É claro que muitas das perguntas que as pessoas fazem no seu dia-a-dia não cai em nenhum desses extremos. É comum que não estejamos nem absolutamente convencidos da reposta antecipadamente nem 100% abertos a alguma informação nova e emocionante da pessoa diante de nós. Todos temos idéias e tendências que fazem com que, acho que de forma bastante inconsciente, formemos opiniões antecipadas sobre que tipo de resposta vamos receber a muitas de nossas perguntas. Podemos não saber porque um político está advogando em favor de determinada política, mas muito antes de receber uma resposta à nossa pergunta podemos suspeitar de que a influência de lobistas, racismo, indiferença aos pobres, ou outras motivações escusas estão envolvidas.
Ainda assim, quantas vezes declaramos em voz alta nossas supseitas ou negações à pessoa que acabou de responder a nossa pergunta? Mesmo quando temos fortes suspeitas, é improvável que façamos isso sem mais nem menos; Em vez disso, nós geralmente tomamos o que nos é dito pelo seu valor aparente. Quase ninguém tenta começar uma discussão alegando que a resposta é simplesmente uma mentira designada a encobrir a nossa negação da realidade. Se dissermos alguma coisa, será a outra pessoa, mais tarde, onde discretamente falaremos das nossas reservas, suspeitas ou preocupações.
Por algum motivo, entrtanto, tal educação e respeito básicos tendem a faltar quando se trata de como cristãos tratam os ateus. Um cristão que nunca diria a alguém “você não se casou com ele por amor, você casou pelo dinheiro!” não tem nenhum problema em dizer “você não deixou o cristianismo por estar persuadido por argumentos mais fortes em favor do ateismo, você o deixou porque teve experiências ruins com uma igreja ruim!” (ou alguma outra desculpa). E quantos desses mesmos cristãos enontraremos em outras situações reclamando que os ateus é que são mal educados, desrespeitosos e intolerantes?
A maioria dos ateus provavelmente não se incomodam em reponder perguntas genuínas sobre o seu ateísmo ou ateismo de forma geral, mas ele provavelmente também não estão nem um pouco interessados em perguntas falsas de alguém que arrogantemente presume que já sabe as respostas. Se fossem completamente honestos, não perguntariam “porque você é ateu?” mas simplesmente diriam “Não conheço você, nunca vi você antes, nunca conversei com você, não conheço nenhum amigo ou familiar seu, e nem sabia de sua existência até 10 minutos atrás, mas eu sei extamente porque você é ateu.”
Colocado dessa forma, claro, é uma postura absurda a adotar, e aqueles que estão inclinados a tentar deveriam parar antes de chegar a esse ponto. Ateus que se deparam com isso deveriam se recusar a jogar o seu jogo. Refaçam a pergunta retórica deles para a declaração actegórica que ela realmente é e faça o teista sustentar o que estão dizendo. As chances de eles conseguirem argumentar de forma razoável são tão pequenas que é praticamente garantido que você vai conseguir colocar um fim rápido a uma conversa que não ia ser produtiva de qualquer forma.
Sunday, January 10, 2010
A origem dos meus valores morais e éticos
Cada um de nós é diferente e passa por experiências diferentes. O que vou abordar hoje diz respeito à minha experiência e de mais ninguém, então não considerem nada disso uma generalização.
Hoje eu estava me lembrando das minhas leituras durante a infância e juventude (e eu lia MUITO) e uma das coias que me marcaram foram as Fábulas de Esopo. Elas sempre vem com uma moral no final, e de uma forma muito clara e simples, de modo que uma criança consegue entender. Isso também foi reforçado pelos meus pais, professores e outros orientadores (eu frequentava os Escoteiros) que sempre enfatizaram a importância de se respeitar as pessoas e os sentimentos delas, que preservar os relacionamentos interpessoais era mais importante do que qualquer ganho material. Nesse processo não lembro de ter sido influenciada por qualquer conceito religioso, sempre foi a partir de um ponto de vista prático e de empatia pelos sentimentos dos outros.
É claro que o fato de eu ter crescido até os 13 anos em um país onde as garantias básicas de sobrevivência estão ao alcançe de todos pode ter feito grande diferença. Todos são devidamente atendidos em termos de saúde e subsistência, ninguém lá corre o risco de não ser atendido em um hospital ou morrer de fome. Mas eu continuo preferindo perder em termos materiais do que prejudicar uma pessoa.
Hoje eu estava me lembrando das minhas leituras durante a infância e juventude (e eu lia MUITO) e uma das coias que me marcaram foram as Fábulas de Esopo. Elas sempre vem com uma moral no final, e de uma forma muito clara e simples, de modo que uma criança consegue entender. Isso também foi reforçado pelos meus pais, professores e outros orientadores (eu frequentava os Escoteiros) que sempre enfatizaram a importância de se respeitar as pessoas e os sentimentos delas, que preservar os relacionamentos interpessoais era mais importante do que qualquer ganho material. Nesse processo não lembro de ter sido influenciada por qualquer conceito religioso, sempre foi a partir de um ponto de vista prático e de empatia pelos sentimentos dos outros.
É claro que o fato de eu ter crescido até os 13 anos em um país onde as garantias básicas de sobrevivência estão ao alcançe de todos pode ter feito grande diferença. Todos são devidamente atendidos em termos de saúde e subsistência, ninguém lá corre o risco de não ser atendido em um hospital ou morrer de fome. Mas eu continuo preferindo perder em termos materiais do que prejudicar uma pessoa.
Tuesday, January 5, 2010
Com a "melhor das intenções"....
Uganda: Evangélicos pioraram a situação dos gays
Essa notícia mostra que não basta ter boas intenções, temos que ter uma visão muito clara das consequências dos nossos atos.
Ingenuamente esses americanos foram divulgar as suas opiniões errôneas e preconceituosas sobre a homossexualidade baseados em suas crenças religiosas, e o que aconteceu foi que acenderam um estopim que agora não sabem como apagar.
Eles podem vir a ser responsáveis, mesmo que indiretamente, pela morte de homossexuais em Uganda, simplesmente porque não foram capazes de avaliar o que a "informação" que estavam fornecendo faria na mentalidade atrasada e supersticiosa daquele povo.
Com dizem, "de boas intenções...."
Essa notícia mostra que não basta ter boas intenções, temos que ter uma visão muito clara das consequências dos nossos atos.
Ingenuamente esses americanos foram divulgar as suas opiniões errôneas e preconceituosas sobre a homossexualidade baseados em suas crenças religiosas, e o que aconteceu foi que acenderam um estopim que agora não sabem como apagar.
Eles podem vir a ser responsáveis, mesmo que indiretamente, pela morte de homossexuais em Uganda, simplesmente porque não foram capazes de avaliar o que a "informação" que estavam fornecendo faria na mentalidade atrasada e supersticiosa daquele povo.
Com dizem, "de boas intenções...."
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